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Eu nunca fui um grande fã do Superman – meu herói favorito, ao lado do Homem Aranha, sempre foi o Batman. Não tenho uma relação afetiva com os clássicos de Richard Donner e Richard Lester, muito menos com a adaptação de Zack Snyder, lançada em 2013. Digo isso, pois, ao assistir a “Superman Returns”, eu não tinha nenhuma expectativa nem uma grande base comparativa; ou seja, diante de mim, estava uma página em branco que, para me agradar, não precisava cumprir pré-requisitos.

O filme de Bryan Singer é, essencialmente, triste – quase uma antítese do que é feito atualmente no cinema de super-heróis. Uma das principais constatações que tive, ao subir dos créditos, foi: como é solitária a vida do salvador do universo. Kal-El (nome de nascença do protagonista) tem duas personas: Clark Kent e Superman. A primeira é a de um jornalista tímido que, apaixonado por Lois Lane, sua colega, vive o dilema da autoexposição. Kent pode se declarar e viver um romance? E seu anonimato? E as consequências de tal escolha? Nesta versão, para piorar, Lane está casada com Richard White, com quem já tem um filho. O protagonista não tem muito o que fazer e nem tem a chance de ser notado pela amada, preocupada com questões mais relevantes. Nesse sentido, Kent não passa de um “recipiente”, um corpo humano para que o herói encare a normalidade cotidiana. Singer destaca tal posição em enquadramentos nos quais Kent fica entre o casal, como um intruso, distante de Lane ou bloqueado por algum elemento da lotada redação. Ao vê-la na televisão, ele sorri discretamente, mantendo a condição platônica de seu sentimento.

A outra persona, o Superman, é um ícone, um símbolo de nobreza, bondade e força. Este, sim, atrai Lane. No entanto, diferentemente de Kent, que é um simples jornalista e está no direito de expor suas emoções, Superman está acima da chamada “trajetória humana”. Jor-El, seu pai, enviou-o à Terra com o propósito de trazer luz aos corações e mentes de uma raça conturbada; todavia, embora tenha nascido em Krypton, Superman cresceu e amadureceu aqui, com dilemas comuns a todos. É difícil ser a divindade que atenderá os chamados da humanidade se nem os chamados do próprio coração são atendidos. Sim, Lane é apaixonada pelo Superman; não à toa, na sua ausência por cinco anos, nos quais foi verificar o status de sua destruída terra natal, ela venceu o prêmio Pulitzer por uma matéria intitulada “Por que o mundo não precisa do Superman”. O texto não é jornalístico; parte da dor de, repentinamente, perder um amor de vista, sem qualquer justificativa. Ao vestir aquela capa, o protagonista deve seguir um estrito código de conduta. Ele não pode parar o que está fazendo para se declarar, ainda que seu coração não difira do de Kent. Superman pode até tentar se convencer do contrário, mas salvar Lane é diferente de salvar outra pessoa. A cena em que ele simplesmente observa sua família, imaginando aquele tipo de normalidade para si, é o tipo de sutileza que eleva o trabalho de Singer.

Superman e Clark Kent são personas incompletas, que, por razões incontornáveis, não podem fazer o que gostariam. O falecido Jor-El está certo ao entender que seu filho é a esperança no mundo, mas é incapaz de distinguir algo relevante: o corpo e os poderes são de Krypton, o coração pulsante, terráqueo. O arco do protagonista é sobre entender que sua existência deve ser estritamente altruísta. Superman é uma figura religiosa, um messias que veio nos libertar da maldade. Ele pode até ver Lane e trabalhar no Planeta Diário, mas passa a maior parte do tempo na atmosfera, sobrevoando a Terra, aguardando chamados de socorro, numa existência solitária e louvável. A atmosfera melancólica é construída a partir de um belo trabalho de fotografia, que combina tons frios, que reforçam a condição de Kent e a ideia de um mundo sem um salvador, e tons de sépia, que pintam uma cidade sem força, em dúvida sobre o destino, ao mesmo tempo em que dialoga com a estética retrô, numa sinergia intensa com a direção de arte, que faz do Planeta Diário um convite ao passado – tanto por sua arquitetura quanto pela sobriedade de suas cores.

A melancolia também está no ritmo e na estrutura do filme, que se recusa a focar na ação excessiva, investindo em sequências mais contemplativas, em que vemos Superman voando, com um olhar melancólico – Singer está interessado na alma, não nos músculos. O tom mais introspectivo da narrativa está sintetizado no figurino clássico do herói, tomado por cores menos vivas, quase desbotadas. Tais opções podem desagradar aqueles que esperam um frenesi de pancadas e tiradas cômicas. No único flashback, Kent lembra da infância, quando conheceu seus poderes. A iluminação radiante contrasta com o sépia de um mundo no qual ele não se encaixa inteiramente. Singer extrai lindos planos gerais da fazenda onde o protagonista cresceu, captando uma paz convidativa, criando um embate instantâneo com Lex Luthor, que navega seu luxuoso navio em águas tempestuosas, rumo à caverna da solidão, onde os diamantes de Krypton se encontram.

Interpretado por Kevin Spacey, Luthor é muito mais uma figura que guia o protagonista ao seu arco do que um vilão notável. Como Singer caminha numa direção contrária às convenções, tal escolha não me incomodou; pelo contrário, acredito que as cenas com Spacey quebram um pouco o gelo, principalmente pelo “fator Parker Posey”, que dá vida à sua fiel escudeira. Singer sempre mantém Luthor numa posição central, de imponência diante de seus aliados, o que vai ao encontro de seus delírios de grandeza – as sombras são suas aliadas. Sobre as cenas de ação, há algumas marcantes; em especial, aquela em que Superman para um avião desgovernado e o aterrissa num campo de beisebol. A concepção da sequência inteira, da tensão dos cortes e das pessoas amedrontadas até a chegada triunfal do herói, é perfeita, encapsulando a sua relevância naquele espaço. Outro momento bacana é aquele em que Superman toma um tiro no olho. O olhar para o bandido e o uso de câmera lenta para enfocar a bala caindo no chão são bastante cool. Singer fecha a narrativa em harmonia com sua proposta, deixando a sensibilidade e o épico coexistirem de forma orgânica.

Kate Bosworth é uma atriz inexpressiva, que pouco oferece às complexidades emocionais de Lois Lane. Sobre Brandon Routh, que surpresa agradável. Além de ter o porte físico para ser o Superman, o ator encarna Kent com um carisma contido, ideal para alguém que não se sente tão confortável na sociedade. Ao vestir a capa, Routh incorpora uma nobreza que combina com a solenidade da direção de Singer. “Superman Returns” talvez não seja o filme que os fãs de quadrinhos ou dos clássicos estrelados por Christopher Reeve queriam. Como não me encaixo em nenhuma das categorias, apenas aplaudo o trabalho de todos os envolvidos.

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