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Em “The Chaser”, de Na Hong-jin, o psicopata, ao escutar a vítima suplicando por sua vida, pergunta: “Por que?”. A vítima, em vez de falar o óbvio, tenta persuadir o monstro com a criança que a espera em casa. Em “I Saw The Devil”, algo muito semelhante acontece e o resultado é o mesmo. Nada atinge os psicopatas; nada é capaz de penetrar suas almas ou uma zona nebulosa de empatia. Não há nada dentro deles, apenas o prazer por agredir, torturar e matar. Kyung-chul não se afastou dos pais e do filho à toa; aquele universo de sentimentos humanos não dialoga com sua natureza diabólica. 

A vítima em questão era esposa de Kim Soo-hyeon, um agente especial, que está disposto a iniciar um jogo vingativo. A premissa é conhecida, ainda mais na Coréia do Sul; no entanto, o roteiro é cuidadoso para colocar “I Saw The Devil” no hall de originalidade, fugindo do lugar comum. Antes da primeira hora, os personagens centrais ficam frente a frente, subvertendo as expectativas. Soo-hyeon não quer só matar Kyung-chul; seu plano é transformar a vida do psicopata num pesadelo. Kyung-chul é uma figura perturbadora. Seu veículo é uma simpática van escolar amarela que carrega asas luminosas no espelho. Na escuridão, as asas se assemelham a olhos sinistros. A asa é um símbolo angelical, de pureza, que dialoga com a imagem que Kyung-chul quer vender para suas vítimas, que compartilham uma característica: são mulheres de aparência doce. O demônio, travestido de benfeitor, sequestra e mata anjos. Choi Min-sik, o Dae-su, de “Oldboy”, oferece uma performance vocal impressionante, iniciando o jogo de sedução com generosidade para, logo em seguida, destilar maldade. Sua voz é um convite ao pânico. O diretor Kim Jee-woon cultiva tal imagem de diferentes formas. Em um dos assassinatos, antes da mulher entrar na van, temos uma lógica de plano e contraplano, até que Jee-woon abre o plano, colocando os dois no mesmo quadro. É como se ele perguntasse: tem certeza de que vai entrar aí? Essa é a última chance de salvação. Os ângulos holandeses e a luz vermelha que, em determinado momento, reflete no rosto de Kyung-chul também servem de estratégia visual para evidenciar sua perversidade. 

Em um filme de subversões, a maior delas é “fragilizar” o monstro, tornando-o vulnerável diante de Soo-hyeon. Refiro-me ao poderio ofensivo e à capacidade de controlar a situação; afinal, o protagonista, após o primeiro espancamento, coloca um GPS em Kyung-chul. Tudo bem, Soo-hyeon irá torturar o assassino de sua esposa das mais variadas maneiras e concluirá a vingança com sua morte. E, depois? A fotografia em tons frios apresenta o universo de um homem devastado. Ele está quase sempre sério, concentrado no plano; todavia, por vezes, desaba em lágrimas. Soo-hyeon é uma boa pessoa, um ser humano afetuoso. Aproximar-se de Kyung-chul e abraçar a vingança não o tornará vitorioso. “Você criou um monstro. Que coisa interessante”, diz o único “amigo” do psicopata. Ele está certo. No quarto escuro, filmado à distância, está um ser que sucumbiu aos demônios internos – a roupa preta é, simultaneamente, cool e representativa do luto. No fim, após a “resolução”, não há esperança de reinício nem de dias melhores; o vazio e a tristeza parecem maiores. Soo-hyeon manchou sua alma. Quando ele reitera que falta muito para seu plano acabar, entendemos que a vingança virou a razão de sua existência; o único propósito que o mantém entre nós. Kyung-chul, embora sofra nas mãos do protagonista, gosta da ideia de enfrentamento e de saber que feriu tanto um ser humano. O roteiro é corajoso ao incluir um humor sombrio, envolvendo, principalmente, as reações de Kyung-chul. “O desgraçado é um completo psicopata” e “Quem é você, porra?” são frases que proporcionaram risadas inesperadas. Aos poucos, fica nítido que é impossível atingir Kyung-chul. O arco de Soo-hyeon é sobre dar murro em ponta de faca. Como se atinge alguém sem alma? Alguém que

esquarteja mulheres grávidas e estupra jovens. A dor que Kyung-chul sente é superficial; não existe medo ali, nada é capaz de impedi-lo ou de assustá-lo. 

O jogo de brutalidade e perseguição só ganha corpo graças à habilidade de Kim Jee-woon, que conduz uma série de sequências memoráveis. A violência gráfica é articulada por coreografias elaboradas de luta – entre os golpes, o diretor foca nos rostos dos personagens, extraindo o que há de mais verdadeiro neles. Sua câmera contempla o grau de visceralidade da narrativa, a urgência dos passos de Soo-hyeon e o caráter inabalável de Kyung-chul. Os pontuais cortes secos também são essenciais para a construção de tensão e da mitologia de brutalidade. Jee-woon alcança a proeza de organizar uma sequência de ação dentro de um carro, com direito a facadas e sangue jorrado – e é fascinante como sua câmera evita uma posição estática, girando dentro daquele espaço reduzido, potencializando o caos e a violência. O já mencionado Choi Min-sik e Lee Byung-hun, colaboradores habituais de Park Chan-wook, estão excepcionais em seus respectivos papéis. Min-sik constrói uma das figuras mais perturbadoras do cinema contemporâneo; enquanto Byung-hun combina contenção, dor e explosão física. 

“I Saw The Devil” é mais uma prova de que, nos últimos 30 anos, o cinema sul coreano tem sido arrebatador.

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