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“As Lágrimas Amargas de Petra von Kant” é um pequeno milagre. Ao adaptar a própria peça teatral, Rainer Werner Fassbinder respeita a estaticidade do material base, ao mesmo tempo em que introduz elementos que dizem respeito somente ao cinema. Podemos dizer que se trata de uma peça de alto valor cinematográfico. A limitação espacial prova ser o atalho para o cineasta alemão exibir toda sua sofisticação. Durante duas horas, observamos uma personagem pouco simpática, em seu quarto, lidando com crises amorosas e pessoais. Não deveria funcionar, mas é excepcional. 

Você não gostaria de passar uma tarde com Petra von Kant. Ela é o tipo de pessoa que faz você se sentir mal somente pelo prazer de destilar seu veneno. Pensando bem, Petra nem sabe o que é prazer. Suas ideias partem de uma mente que desconhece os princípios de empatia e companheirismo. O fracasso de seu último casamento é narrado com o cinismo de quem finge entender as nuances do amor e das relações humanas. A cada palavra proferida, a sensação é de que ela se envolve com homens para poder ter razão. A verdade, no entanto, é que Petra odeia a si mesma. Seu sucesso enquanto estilista e o conforto financeiro não lhe trazem afago, o que parece ter desencadeado uma amargura profunda em sua alma, impedindo-a de entrar em contato consigo e de dar uma chance às pessoas. As perucas, trocadas em momentos específicos, são símbolos dessa incapacidade de autoconhecimento, de viver em sociedade. São máscaras que formam uma caricatura, não uma mulher. Os espelhos, explorados por Fassbinder, filmam reflexos, personas arquitetadas. Quando Karin, uma aspirante à modelo, entra em sua vida, a noção de uma pessoa incapaz de enxergar a realidade fica mais nítida.

Como mencionei, nunca saímos do quarto de Petra, o que ressalta a sua absoluta solidão, mas que poderia representar um obstáculo para Fassbinder e Michael Ballhaus, o diretor de fotografia. A dupla, através de movimentos de câmera suaves, da exploração de diferentes pontos de vista e, principalmente, do bloqueio (posição no enquadramento) das atrizes, estabelece uma dinâmica sensual entre Petra e Karin, como um prenúncio do que viria a acontecer. Trata-se de um verdadeiro jogo de intenções e desejos, salientado, também, pelo figurino das duas, que parecem ter visitado o set do filme “Calígula”. Poucas vezes, a mise en scène chegou a um nível tão puro e elaborado assim – em uma única e apertada locação, Fassbinder faz mais do que cineastas que têm países e continentes para explorar. Após declarações românticas precoces, temos um fade out – uma grande ironia por parte do diretor. Seis meses se passam e a relação se tornou exatamente aquilo que imaginávamos. Karin nunca viu Petra como uma mulher, apenas como a porta de entrada para o mundo da moda. Claro, há uma falha de caráter aí, todavia, não podemos culpá-la inteiramente; afinal, Petra também não a enxergava. A protagonista estava diante de uma idealização, de um ser virtuoso e adaptável. Karin está prestes a ir embora e tudo que a protagonista faz é se humilhar, implorando por mentiras e novas chances. Fassbinder filma a perversão, o ódio, a maldade e a falta de piedade perante a si com uma força descomunal. Depender emocionalmente de alguém é um sinal claro de que você não conhece essa pessoa – são esboços de perfeição, fabricados por mentes frágeis. 

No ato derradeiro, loucura e dependência se confundem em bebidas alcoólicas. Gabriele, sua filha, que vive num internato, surge com uma roupa amarela, que denota ingenuidade e alegria. Elas não são próximas; aquele tipo de sentimento é estranho no quarto da protagonista, que, por sua vez, usa um vestido verde e uma flor vermelha no pescoço. Não há glamour, estamos diante de uma personificação da tragédia melodramática. O papel de parede que reproduz a pintura Midas e Baco, de Nicolas Poussin, confere toques operísticos à narrativa antes mesmo que Petra se expresse. Por estranho que pareça, a personagem mais fascinante ainda nem foi citada. Marlene, criada e co-estilista, é uma figura enigmática. Ela está sempre lá, com sua roupa preta, ao fundo do quadro, como uma sombra que nunca abandona a protagonista. Ao longo das duas horas, Marlene não abre a boca sequer para dar bom dia, aguentando os maus tratos calada. Talvez ela seja uma extensão da alma atormentada de Petra, uma representação do ódio que sente por si. Não à toa, no fim, quando a protagonista entra num acordo de paz consigo, num lapso de lucidez, a criada faz as malas e vai embora. Natureza à parte, Marlene é o que há de mais puro em Petra. Os planos em que a vemos cabisbaixa, imersa nas sombras ou atrás de uma janela são símbolos da tristeza que Petra não se permite explorar. Na sequência da sedução, Marlene digita na máquina de escrever com uma força brutal – seria um aviso? A consciência da estilista, distante da sensatez? Ao ir embora, Marlene coloca uma arma na mala. Será que, agora, Petra não pode mais fazer mal a si? O mistério segue intacto. Não sabemos o que acontecerá. As escolhas musicais, com destaque para “In My Room”, dos Walker Brothers, revelam mais do que alguns diálogos.

Margit Carstensen oferece uma performance retumbante, indo do cinismo ao desespero com muita destreza. Irm Hermann, que interpreta Marlene, merece elogios por trazer tanta expressividade a uma personagem que jamais se expressa. No início da década de 70, Fassbinder, após assistir aos filmes de Douglas Sirk, diz ter tido uma epifania. Bem, essa epifania rendeu grandes frutos e “As Lágrimas Amargas de Petra von Kant” é um dos principais.

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