Skip to main content

A provocadora pergunta do título é respondida logo no início. O diretor Chicho Ibáñez Serrador seleciona imagens de arquivo brutais de diferentes guerras. “No final, quem paga por tudo são as crianças”, diz um personagem. Ainda assim, com uma abertura tão visceral, é difícil imaginar os caminhos que Serrador trilhará. A mulher morta na praia é uma pista. O corte seco, uma marca da narrativa, quando as crianças se amontoam para disputar os doces da pinhata evoca uma certa animosidade. Os fogos de artifício, cada vez mais altos, soam como bombas. O plano-detalhe do jornal destaca dois corpos encontrados. O calor é latente, diria que perigoso para uma mulher grávida. Os avisos estão por aí, mas o que Serrador planeja? Esse clima de estranheza e inquietação é o grande barato do filme. 

Tom e Evelyn, um casal inglês, pretendem passar as férias na pacata ilha de Almanzora, na costa mediterrânea espanhola. Eles viajam sozinhos, em um pequeno barco. O silêncio do mar evoca paz ou pânico? Chegando lá, o casal percebe que a ilha está vazia, incluindo mercearias, bares e hotéis. O único sinal de vida é dado por algumas crianças que variam entre a mudez e sorrisos um tanto perturbadores. Antes de qualquer coisa, este é um filme de atmosfera, que depende de um vasto arsenal estético. No bar, Evelyn aguarda o marido. A câmera se aproxima, expondo, ao fundo, uma figura. O design de som é essencial na fomentação de tensão, pontuando o grunhido da máquina de girar frango e o estrondo do telefone – sem falar na trilha sonora, que varia entre batidas de suspense e algo cantarolado por crianças. Na mercearia, Serrador deixa de “acompanhar” Tom, optando por um ângulo baixo que mostra uma mulher morta. Aos poucos, as férias e o otimismo do casal se transformam em um pesadelo. Todos foram assassinados pelas crianças, que, por algum motivo misterioso, planejam uma “revolução”. É tudo alegórico, dialogando com as imagens de arquivo: as crianças, pisoteadas e destruídas nas guerras, buscam vingança. 

A pergunta retorna: Quem pode matar uma criança? É possível disparar um tiro num ser que representa aquilo que há de mais puro? A intensidade dos cortes e, por vezes, dos movimentos de câmera, salientam a brutalidade das crianças. Os enquadramentos em que vemos a minuciosa organização dos “vilões” remetem ao subgênero zumbi. A diferença é que, em vez de cadáveres lentos e inexpressivos, temos seres que exalam frieza, ironia e sadismo. Eles não falam, apenas riem, pois sabem de algo que é pontuado por Serrador: a superioridade numérica. O diretor recorre, invariavelmente, a close-ups, aproximando o espectador de uma perturbação genuína. O plano-detalhe do olho de uma das crianças ressalta o poder de atração que existe na ilha: um toque ou uma encarada direcionados a um semelhante é o bastante para convencê-lo da “causa”. Tom é quem fica na posição mais delicada, sendo obrigado a se desdobrar entre funções igualmente ingratas. A princípio, ele quer proteger Evelyn, grávida, sem criar alarde; todavia, esta opção se torna impossível. Como nos bons filmes de zumbi, este também é sobre sobrevivência e coragem. O protagonista precisa pensar num jeito de chegar ao barco. O roteiro também é hábil o bastante para surpreender o espectador, adicionando toques trágicos e ainda mais perturbadores. Uma das grandes sequências, que tem a ver com o título, é uma verdadeira aula de decupagem, construção de tensão e de uma ideia. Quando Tom atira, salvando a esposa, o tumulto gerado pela montagem e pela trilha sonora é interrompido, dando voz ao silêncio e ao sangue que escorre pela parede. Um pecado? Uma decisão difícil, mas necessária e justa. Não é simples perceber que, do outro lado, a ingenuidade e a doçura foram infectadas pela violência que rege o universo. O filme termina numa nota sombria, deixando o espectador perplexo com o que acabou de assistir. 

Lewis Fiander e Prunella Ransome oferecem performances incandescentes, calcadas no medo, no instinto de sobrevivência e na expressividade corporal. “Quem Pode Matar Uma Criança?” é uma jóia que merece ser redescoberta.

O que você achou deste conteúdo?

Média da classificação / 5. Número de votos:

Nenhum voto até agora. Seja o primeiro a avaliar!