Wim Wenders gosta da estrada. “Alice nas Cidades” é o tipo de filme que coloca um diretor no patamar de autor. Você sabe que aquela é uma visão de mundo específica e que as escolhas estéticas/narrativas fogem do lugar comum. Wenders, dentro do “Novo Cinema Alemão”, é o que mais se assemelha a um poeta. A trama, aqui, pouco importa; as verdadeiras observações estão nas entrelinhas, quando percebemos algo a mais sobre os personagens.
Os fades são constantes, evidenciando o vazio que rege a vida do protagonista – a tela preta é um símbolo poderoso. Mais do que pontuar o vazio, Wenders usa tal elemento de montagem para refletir sobre a natureza de seu filme. Ele está registrando dias normais e situações comuns. Philip é um jornalista. Sua tarefa é escrever histórias sobre cidades americanas; no entanto, em seu percurso, é a câmera fotográfica quem mais aparece, não o caderno. Ele tira fotos por curiosidade, para tentar encontrar a beleza no cotidiano, mas, também, para ter certeza de que esteve naqueles lugares. A repetição é um sintoma de liberdade ou a confirmação de que se está preso à solidão? Nada parece encantá-lo, nem mesmo os letreiros em neon. A estrada o mantém em movimento. Talvez esteja na hora de parar e recalcular certas rotas. O piloto automático é confortável para quem não tem um plano. Philip não escreve nada. Não há histórias interessantes em sua mente, o que, provavelmente, acarretará sua demissão.
Eis que, ao tentar comprar uma passagem para a Alemanha, o protagonista conhece Lisa e sua filha, Alice. Os três estabelecem uma relação e Lisa, lidando com o conturbado término de seu relacionamento, pede para que Philip leve Alice consigo. Neste curto período, antes que a mãe da garota retorne a Alemanha, os dois partem numa simples, porém significativa “aventura”. O “road movie” deixa de ser sobre o homem cansado, ganhando novas nuances com a introdução de um ser cuja pureza é inconfundível. O naturalismo de Wenders é algo a ser apreciado. Quando dois personagens entram num avião, o espectador espera que, no corte seguinte, eles já estejam no próximo destino. O cineasta alemão, por sua vez, está interessado em ver o avião decolar e na perspectiva da janela do passageiro. O design de som destaca barulhos e ruídos das ruas, incrementando temperos prosaicos à narrativa. O “embate” entre o taciturno e a curiosa é delicioso de se assistir. Agora, ele tem uma pessoa para tirar uma foto sua – parece banal, mas é o tipo de sutileza que Wenders sustenta com força. Philip também não está acostumado a responder perguntas, muito menos a cuidar de alguém. A cena em que o protagonista tenta descobrir em que cidade a avó de Alice vive é um belo exemplo de um humor naturalista, que parte de interações desprovidas de qualquer pretensão cômica – rimos, porque é corriqueiro.
O arco de Philip é sobre sair da inércia e viver momentos verdadeiramente representativos. Para um homem que carrega uma chave de hotel perdida na mochila, contar uma história de ninar para uma criança é um feito especial. Pela primeira vez, sua câmera não parece tão relevante. Philip não precisa registrar os momentos e os espaços para ter certeza de nada – ele sabe que está ali, vivendo o presente. Falando no espaço, a trajetória também é sobre um retorno às origens, deixando os arranha-céus novaiorquinos para trás, em direção às pequenas casas e ruas das cidades alemãs. Wenders captura momentos lindíssimos de afeto e aproximação, como, por exemplo, aquele da cabine de fotos e outro, em que Alice, no carro, deita-se no ombro do protagonista. Situações em que palavras pouco importam. Não há catarse, adeus ou redenção, apenas a vida e seu gosto agridoce – ela segue, sem maiores planos. Rüdiger Vogler, colaborador habitual de Wenders, oferece uma performance delicada e serena, que conversa com o estilo do diretor e com a primorosa fotografia em preto e branco.
“Alice nas Cidades” é um marco para o cinema alemão. Uma obra prima que sintetiza as maiores paixões de um mestre da sétima arte.




