Ao longo da minha infância, alguns filmes me marcaram e serviram, de alguma forma, como definidores de caráter. A trilogia original do “Homem Aranha”, dirigida por Sam Raimi, sempre terá um lugar especial em meu coração. Neste caso, o benefício da retrospectiva só me faz valorizar estes filmes, que seguem no topo dos rankings das adaptações de HQ’s. O primeiro, de 2002, é irrepreensível enquanto história de origem. O terceiro, de 2007, é uma deliciosa bagunça de tons melodramáticos. O segundo, de 2004, virou uma espécie de xodó da crítica. Os elogios são justos? Ele é realmente superior aos demais? Veremos…
Diferentemente da maioria dos filmes de herói, neste, o protagonista é apresentado como um fracassado, uma verdadeira catástrofe ambulante. Parker está com o aluguel atrasado, corre risco de reprovação na faculdade, perde o emprego de entregador e é mal visto por J.J. Jameson, seu patrão no jornal. Ele está cada vez mais distante de Harry, que o considera quase um cúmplice do Homem Aranha na morte de seu pai. E, para piorar, completamente apaixonado por Mary Jane, Parker considera que, trazê-la para sua vida, seria algo de uma imprudência indigna de um herói. Raimi pinta um retrato no qual Peter Parker, simbolicamente, morreu. Seu cotidiano é uma sucessão de furadas, sobrando espaço apenas para o amigo da vizinhança, que, a essa altura, já é o amigo da cidade inteira. Quanto mais afetado pela necessidade de salvar a todos, mais Parker perde a fé no seu propósito: ser o herói altruísta, corajoso e nobre que traz esperança a um povo contaminado pelo mal. A dúvida acarreta a perda de seus poderes, levando-o à conclusão de que está na hora de dar uma oportunidade ao ser humano que grita por uma chance.
“Homem Aranha 2” é o filme que melhor apresenta o conflito central da existência dos heróis. Estar disposto a vestir aquela roupa e saltar por aí, salvando pessoas, significa abdicar de seu potencial individual e humano. Ficar machucado ao ver Mary Jane com um parceiro, noiva e bem-sucedida é a prova de que Parker ainda está no comando de seu coração. Raimi, por vezes, destaca sua condição de observador longínquo – o protagonista está lá, magoado, assistindo a falência de suas ambições pessoais. Da mesma forma, assumindo o compromisso de herói, Parker jamais poderá entrar num acordo com Harry, afastando o melhor amigo para uma zona nebulosa. O roteirista Alvin Sargent traz luz a um conflito existencialista primordial: Parker precisa decidir entre abraçar o heroísmo de vez ou ser o homem que nunca teve possibilidade de ser. Raimi entende o tamanho dessa escolha, fechando o quadro em seu rosto e, depois, optando por um contra-plongée que o coloca numa posição de alta magnitude. A imagem de Parker, num beco escuro, caminhando e a roupa, em primeiro plano, deixada no lixo é um símbolo ambíguo, de liberdade e desalento. A cidade perdeu seu protetor, mas Parker, como vemos a seguir, numa manhã ensolarada, ao som de “Rain Drops Keep Falling on My Head”, parece ter acordado para a vida.
O arco de Parker passa por aceitar que veio ao mundo por um “bem maior”. É neste filme em que ele realmente se transforma no Homem Aranha, no herói cujo altruísmo é inegociável. Talvez não seja possível se declarar e viver um amor convencional; no entanto, a cada resgate, Parker prova a Mary Jane a pureza de seus sentimentos. No papel de antagonista, Alfred Molina interpreta Doutor Octopus, que é ameaçador o bastante para tornar tudo ainda mais interessante. O miolo da narrativa, composto por sequências antológicas de ação, sintetiza a destreza de Raimi, que combina o frenesi dos golpes dos personagens, que se embolam por paredes, com uma montagem enérgica, mas nunca confusa, e o uso preciso de câmera lenta. A cena do metrô é especialmente genial, por ressaltar o tamanho do esforço do herói para salvar a cidade e o carinho que todos têm por ele. Quando os poderes de Parker retornam, no encontro com Mary Jane, Raimi estabelece uma elegante rima: a cada passo estrondoso de Octopus, o quadro se fecha mais. O que falar da sequência no hospital? Raimi embute suas marcas autorais do terror, colocando os médicos à mercê da brutalidade de um vilão impiedoso. O filme também é dotado de um senso de humor peculiar, oriundo da personalidade meio apalermada do protagonista. Tobey Maguire exala esse tipo de presença carismática e desajeitada – aquela cena no elevador é sensacional.
No fim, o roteirista e Raimi, a partir de ângulos holandeses desorientadores, abrem espaço para Harry ser o novo Duende Verde. Intoxicado pela ideia de vingança do pai, ele não tem outra saída. Kirsten Dunst, assim como James Franco, demonstra familiaridade com o papel, incorporando um amadurecimento natural à sua personagem, ao mesmo tempo em que lida com novos dilemas.
E, claro, Danny Elfman reafirma o seu posto de mestre de trilhas sonoras para heróis. Os créditos iniciais são arrepiantes. “Homem Aranha 2” é o filme mais maduro e coeso de uma trilogia impecável.



