Alguns filmes representam marcos na vida dos amantes da sétima arte. “Peppermint Candy” é uma tragédia narrada de trás para frente. Que nocaute. Que tristeza. Que coisa linda. Não tem jeito, os grandes cineastas coreanos nasceram com a vocação de traumatizar o espectador. Em seu segundo projeto, Lee Chang-dong propõe o estudo de um personagem que decide pôr fim à sua existência, iniciando a projeção com o suicídio.
Uma reunião de amigos antigos. De terno, Kim Yeong-ho chega um tanto transtornado. O que o levou àquele estado? Por que, em vez de confraternizar, ele enlouquece diante de pessoas que parecem demonstrar algum tipo de afeto? A festa e o fim – um contraste que revela a absoluta desconexão sentida pelo protagonista. “Estou voltando”, grita Yeong-ho, antes do trem atropelá-lo. A partir daí, acompanhamos capítulos definitivos de sua vida, espalhados ao longo de vinte anos. Entre cada flashback, o trem, em sentido contrário, percorre o seu caminho, estabelecendo uma conexão com o suicídio, ao mesmo tempo em que traz paz à tela – isso sem falar na lindíssima trilha sonora. Primeiro, vemos o protagonista três dias antes, sozinho, com ideias ruins na cabeça. O dinheiro que lhe restou, após acumular dívidas e ser traído por seu sócio, é destinado a uma arma. Ao direcioná-la ao próprio rosto, dentro do carro, as gotas da chuva embaçam o vidro, numa imagem que reflete o esgotamento daquele ser humano. Sua casa é uma cabana insalubre. Não vemos um homem, somente a carcaça de um, vestida, agora, por um animal selvagem. No auge do desalento, um sujeito diz que sua esposa, terrivelmente doente, quer se despedir dele. Um antigo amor? O choro é autoexplicativo. E a câmera fotográfica? Chang-dong introduz símbolos que, aos poucos, ganham significados importantes.
Em 1994 (o filme começa em 1999), o protagonista vive no piloto automático, degradando-se pela falta de empatia e sensibilidade. Ele agride a esposa, flagrada com um amante, mas também mantém um caso extraconjugal. Nada é capaz de abalá-lo, nem mesmo os “amigos” ou o dinheiro que ganha como empresário. Em 1987, prestes a ser pai, o rosto mais jovial não esconde sua melancolia. Yeong-ho é o tipo de pessoa que guarda mágoas e traumas para si, evitando o confronto de demônios internos. É fácil perceber que algo o aflige. Ele deveria estar feliz, mas não há sinais de alegria em suas reações. Seus gestos efusivos são vistos no trabalho policial, quando tortura, impiedosamente, um suspeito. A violência é a forma de expressar aquilo que as palavras não dão conta. Por vezes, notamos espasmos de humanidade. “A vida é bela?”. Ao falar de Yun Sun-im, a mulher adoecida, seus olhos brilham. O amor já foi uma arma de encantamentos; o choro é um sinal de que não estamos diante de um monstro, mas de alguém moldado por experiências e pelo contexto político de seu país.
Quanto mais voltamos no tempo, mais magoados e destruídos ficamos. Yeong-ho não é nada daquilo que imaginávamos; aquela não é sua essência. É possível transformar a natureza humana? Pelo visto, sim. O tempo é cruel, não te dá segundas chances. A cada ano, um pedaço da alma apodrece. Mas o tempo não mente, captando as nuances da destruição e trazendo à tona a verdade. Recém-chegado na polícia, o protagonista vê a tortura com medo, abismado com a brutalidade dos colegas. O meio é tóxico, sem espaço para sentimentos minimamente complexos. Yeong-ho não consegue ser ele mesmo; não tem forças para resistir ao sistema nem para fugir. Por que Sun-im intimida tanto? A câmera é o símbolo de um sonho perdido, de uma carreira que nunca se concretizou. Falta apoio. O protagonista está sempre sozinho. Em 1980, somos levados ao exército, onde a masculinidade tóxica chega a níveis exorbitantes e Yeong-ho é completamente ofuscado pela farda. Aquele período separou almas gêmeas e foi determinante para a destruição da inocência de um jovem puro e vulnerável. O sangue nas mãos e a luz invasiva no rosto são marcas do fim. Em alguns casos, o ser humano acaba muito antes de morrer. Andamos sem alma, esperando pela morte fisiológica – então, nos atiramos na frente de um trem.
No fim, chegamos a 1979, vinte anos antes do suicídio. Sem entrar em maiores detalhes… que desfecho duro e difícil de engolir. A força da estrutura é torrencial; arcos invertidos fazem da luz uma escuridão impenetrável. Os mesmos amigos, o mesmo ambiente, a mesma música… quanta diferença. Tanta esperança e expectativa. A natureza e o espaço aberto, enfim, evocam algum conforto. O amor era algo especial. As flores tinham um significado. Sem violência, sem relações protocolares, sem mortes, sem ser engolido por um sistema que transforma humanos em máquinas de faturamento. O barulho do trem, invariavelmente destacado pelo design de som, volta a aparecer. “Tenho a sensação de ter estado aqui antes”.
Sul Kyung-gu oferece uma performance irretocável, captando a densidade do protagonista sem um desenvolvimento convencional. A cada salto, uma faceta diferente, algo que se perdeu. A cena inicial não poderia contrastar mais com a final – esse é o tamanho do trabalho de Kyung-gu, além, claro, de Chang-dong e do diretor de fotografia Kim Hyung-koo. “Peppermint Candy” é o que há de melhor na Coreia do Sul.




