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O cineasta que filmou o desejo, e foi condenado por ele

Poucas filmografias do cinema francês contemporâneo carregam o peso, a contradição e o desconforto da obra de Jean-Claude Brisseau. Em pouco mais de quatro décadas, ele dirigiu filmes que atravessam a banlieue parisiense, a metafísica do erotismo, a violência social, o êxtase religioso e a transcendência através do corpo. E construiu, ao mesmo tempo, uma das biografias mais incômodas da história recente do cinema de autor europeu. 

Vida

Jean-Claude Brisseau nasceu em Paris, em 17 de julho de 1944, em uma família operária. A mãe trabalhava como faxineira, e foi ela quem, segundo o próprio diretor, lhe transmitiu o gosto pelo cinema. A trajetória dele, no entanto, não passou pelos círculos tradicionais da crítica e da Cinemateca Francesa. 

Por razões financeiras, ingressou no magistério público e passou cerca de vinte anos ensinando francês em escolas dos subúrbios de Paris, com frequência em turmas de reeducação que atendiam adolescentes vulneráveis. Essa experiência de duas décadas em sala de aula, em contato direto com a marginalidade social francesa, viria a alimentar o realismo cortante de seus primeiros longas.

Em 2005, Brisseau foi condenado criminalmente por assédio sexual. Três mulheres o denunciaram pela conduta dele durante audições e ensaios realizados entre 1999 e 2002 para o filme Choses secrètes. A acusação foi de que ele induziu atrizes a executarem atos sexuais diante da câmera sob a promessa de papéis em seus filmes. A sentença foi de um ano de prisão suspensa, 15 mil euros de multa e 9.500 euros de indenização às vítimas. 

O caso é tratado pela crítica francesa como um dos primeiros marcos pré-MeToo no debate sobre abuso de poder na indústria cinematográfica europeia.

Brisseau morreu em Paris, em 11 de maio de 2019, aos 74 anos.

Estilo e método

A entrada de Brisseau no cinema foi viabilizada por Éric Rohmer, que o ajudou a conseguir financiamento do INA, o Instituto Nacional do Audiovisual. O primeiro longa, La Vie Comme Ça, foi realizado em 1978, originalmente para a televisão. O reconhecimento crítico mais sólido veio em 1983 com Un Jeu Brutal, drama sobre repressão, paternidade e loucura. Já em 1988, De bruit et de fureur tornou-se sua obra mais celebrada do período. Considerado o primeiro filme francês a tratar a banlieue como espaço estético, antecipou em sete anos a explosão temática que viria com La Haine, de Mathieu Kassovitz.

Os anos 1990 marcaram uma virada na obra. Em 1989, Noces blanches transformou a imagem pública de Vanessa Paradis, até então conhecida apenas como cantora pop adolescente. Em 1992, Céline deslocou o cinema de Brisseau da urgência social para a investigação espiritual, com uma jovem que renuncia à própria herança e encontra estados de transcendência através de técnicas de relaxamento. L’Ange noir, de 1994, e Les Savates du bon Dieu, de 2000, aprofundaram a fricção entre desejo, culpa e ascese mística.

O ponto mais conhecido da filmografia veio em 2002 com Choses secrètes, drama sobre duas mulheres que decidem usar a sedução e o desejo masculino como instrumento de ascensão social. O filme consolidou Brisseau como nome do erotismo intelectual europeu, e foi também o set onde foram cometidos os atos pelos quais ele seria condenado três anos depois.

Em 2006, mesmo após a condenação, Brisseau realizou Les Anges exterminateurs. O filme tem como premissa um cineasta convocando atrizes para testes envolvendo cenas de êxtase sexual diante da câmera. Parte significativa da crítica francesa leu a obra como tentativa de autojustificação travestida de ficção. Seguiram-se À l’aventure, em 2008, e La Fille de nulle part, em 2012, considerado o filme mais introspectivo e melancólico da sua carreira tardia.

Prêmios e reconhecimentos

Em Cannes, Brisseau recebeu o Prêmio Especial da Juventude em 1988 por De bruit et de fureur. O mesmo festival lhe deu o Prêmio France Culture do Cineasta do Ano em 2003, pelo conjunto da obra, com destaque para Choses secrètes. Céline foi indicado ao Urso de Ouro no 42º Festival de Berlim, em 1992. La Fille de nulle part venceu o Leopardo de Ouro no Festival de Locarno em 2012, prêmio máximo da mostra. 

Em 2003, o Festival de Roterdã homenageou Brisseau com a posição de Filmmaker in Focus, dedicando uma retrospectiva à sua filmografia.

Legado

A obra de Brisseau circula hoje em retrospectivas autorais e em estudos sobre cinema de banlieue, sobre erotismo metafísico no cinema europeu e sobre a relação entre autoria e abuso de poder no audiovisual. De bruit et de fureur é referência incontornável quando se discute as origens estéticas do cinema social francês contemporâneo, e seu impacto pode ser rastreado em filmes como La Haine e, mais distantemente, em narrativas brasileiras sobre periferia urbana, como Cidade de Deus. Já a linhagem do erotismo filosófico, do corpo como espaço de transcendência e da câmera como dispositivo de exposição, dialoga com a obra posterior de cineastas como Catherine Breillat, Lars von Trier, Gaspar Noé e Bertrand Bonello.

O caso criminal, por sua vez, transformou Brisseau em um dos exemplos europeus mais citados quando se discute se é possível separar artista e obra. Não é uma discussão que seu cinema permita encerrar. Justamente por isso, ele segue sendo estudado, e segue exigindo um tipo de espectador que não esteja disposto a virar o rosto, nem para a beleza nem para o horror.

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