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O cineasta que ensinou Hollywood a olhar para o céu

Poucas filmografias do cinema americano carregam, ao mesmo tempo, o peso de ter reinventado a indústria e a coerência de uma obsessão pessoal sustentada por mais de cinco décadas. 

Steven Spielberg dirigiu filmes que atravessam o realismo, o thriller, a fantasia da infância, a aventura, o trauma histórico, a ficção científica e, sobretudo, o encontro com o desconhecido vindo do céu. Construiu, no caminho, a carreira mais comercialmente bem-sucedida da história do cinema, sem nunca abandonar o impulso de fundo que o moveu desde a adolescência: o de filmar aquilo que não se pode explicar.

Vida

Steven Allan Spielberg nasceu em Ohio, em 1946, em uma família judia de origem russa, filho de um engenheiro elétrico pioneiro no desenvolvimento dos primeiros computadores comerciais americanos e de uma pianista de formação clássica. A infância foi marcada por mudanças sucessivas, de Ohio a Nova Jersey, depois a Phoenix, no Arizona, e finalmente a Saratoga, na Califórnia, e por uma noite específica que ele contaria a vida inteira, quando em algum momento dos anos 1950 o pai o acordou de madrugada para verem juntos uma chuva de meteoros no deserto do Arizona, instante que é, segundo o próprio diretor, a matriz emocional de Contatos Imediatos do Terceiro Grau e, por extensão, de toda a sua relação com o céu como espaço cinematográfico.

Começou a filmar ainda criança, em 8mm, dirigindo aos dezessete anos, em 1964, Firelight, longa amador sobre alienígenas invadindo uma pequena cidade que é embrião direto não apenas de Contatos Imediatos mas também de Disclosure Day, que estreia agora em 2026 e representa o retorno explícito do diretor ao gênero que o formou. 

Cursou cinema na California State University Long Beach mas abandonou o curso para perseguir a carreira na indústria, e em 1968 dirigiu Amblin’, curta-metragem que chamou atenção da Universal e lhe rendeu, ainda em seus vinte anos, um contrato como diretor de televisão, além de batizar mais tarde sua produtora, a Amblin Entertainment, fundada em 1981, à qual se somaria em 1994 a DreamWorks SKG, primeiro grande estúdio criado em Hollywood em décadas, fundada com Jeffrey Katzenberg e David Geffen.

A identidade judaica, que atravessaria sua obra a partir dos anos 1990, é parte indissociável da biografia, e foi também o motor da criação da USC Shoah Foundation em 1994, arquivo audiovisual com mais de cinquenta e cinco mil depoimentos de sobreviventes do Holocausto financiado com seu salário e os lucros futuros de A Lista de Schindler. 

Casado desde 1991 com a atriz Kate Capshaw, após um primeiro casamento com Amy Irving entre 1985 e 1989, tem sete filhos entre biológicos e adotivos e é, segundo a Forbes, o cineasta vivo mais rico do mundo.

Estilo e método

O cinema de Spielberg se organiza em torno de uma intuição central, a de que o espetáculo popular e o gesto autoral não são instâncias opostas, mas a mesma matéria filmada com domínio técnico extremo. Pauline Kael identificou isso já na estreia em longa, em The Sugarland Express, ao reconhecer ali um entertainer nato, com traços que voltariam por décadas, o controle absoluto do espaço, a coreografia de veículos em movimento e a tensão entre a leveza popular e o pano de fundo de fratura social. 

Tubarão, dois anos depois, tornou esse repertório modelo de indústria ao construir tensão pela ausência, pelo monstro fora de quadro, pela espera, e Contatos Imediatos do Terceiro Grau, em 1977, consolidou a síntese ao recusar o imaginário invasivo da ficção científica anterior e filmar não o medo do alienígena, mas o êxtase diante dele, fundando uma gramática inteira do encontro com o desconhecido da qual toda a obra subsequente deriva.

A virada estética decisiva veio em 1993, quando Jurassic Park e A Lista de Schindler estrearam no mesmo ano em uma demonstração de amplitude técnica e moral rara na história do cinema. Schindler iniciou a parceria com o fotógrafo Janusz Kamiński, que reorganizou desde então toda a textura visual da obra ao introduzir uma câmera mais áspera, móvel e documental, próxima da reportagem de guerra, que O Resgate do Soldado Ryan levaria ao limite em Omaha. A partir daí Spielberg passa a operar em dois registros simultâneos, o do espetáculo de gênero e o do drama histórico de peso, ambos compartilhando a mesma assinatura visual de imperfeição estudada.

A primeira década dos anos 2000 é talvez o período mais subestimado e mais coeso da carreira como projeto autoral. Spielberg encadeou Minority Report, Guerra dos Mundos e Munique em uma trilogia involuntária sobre o medo, a vigilância e a violência do mundo pós-11 de setembro, três filmes em que o gosto pelo espetáculo permanece intacto mas posto a serviço de uma desconfiança política e ética que raramente se vê no cinema americano de grande orçamento. 

A década seguinte aprofundou essa vertente histórica em Lincoln, Ponte dos Espiões e The Post, alternada com a reinvenção do clássico em Amor, Sublime Amor e com o espelho autobiográfico de The Fabelmans. Atravessa tudo uma rede estável de colaboradores, John Williams na trilha desde o início, Kamiński na fotografia desde 1993, Michael Kahn na montagem desde 1977 e David Koepp como roteirista recorrente do gênero, parceria que se renova em Disclosure Day em 2026. 

Essa permanência, em uma indústria estruturalmente nômade, é parte do método, e talvez explique a sensação difícil de nomear de que um filme de Spielberg soa sempre como um filme de Spielberg, não por estilo decorativo, mas por uma maneira específica de organizar o tempo da cena, coreografar o olhar e confiar na emoção como dispositivo de pensamento.

Prêmios e reconhecimentos

  • Oscar de Melhor Diretor por A Lista de Schindler (1994)
  • Oscar de Melhor Diretor por O Resgate do Soldado Ryan (1999)
  • Oscar de Melhor Filme por A Lista de Schindler
  • Nove indicações ao Oscar de Melhor Diretor, atrás apenas de William Wyler e Martin Scorsese
  • Recorde de indicações ao Oscar de Melhor Filme como produtor, com quatorze
  • Quatro BAFTAs
  • Cinco Globos de Ouro
  • Treze Emmys
  • Cecil B. DeMille Award (2009)
  • AFI Life Achievement Award (1995)
  • César Honorário (1995)
  • Urso de Ouro Honorário, Festival de Berlim (2023)
  • Vigésima segunda pessoa da história a vencer Emmy, Grammy, Oscar e Tony
  • Grammy pelo documentário musical Music by John Williams (2026)
  • Tony pela produção do musical A Strange Loop (2022)
  • A coincidência cronológica entre o EGOT e o retorno à ficção científica alienígena com Disclosure Day é, talvez, o gesto mais simbólico de toda a sua trajetória pública, o ano em que Hollywood completa a consagração de Spielberg é também o ano em que ele volta a filmar exatamente o que filmava nos primeiros amadorismos da adolescência
  • Kennedy Center Honors (2006)
  • Medalha Presidencial da Liberdade, concedida por Barack Obama (2015)
  • Medalha Nacional das Artes, concedida por Joe Biden (2024)
  • Cavaleiro Honorário da Ordem do Império Britânico (2001)
  • Cavaleiro e Oficial da Legião de Honra francesa (2004 e 2008)
  • Sete filmes inscritos no National Film Registry da Biblioteca do Congresso americano por significância cultural, histórica ou estética

Legado

A obra de Spielberg circula hoje em retrospectivas, currículos universitários e debates sobre a própria definição do cinema americano de massa. Tubarão é referência incontornável das origens do blockbuster moderno, Contatos Imediatos fundou uma gramática visual do encontro com o desconhecido que reverbera em praticamente toda a ficção científica popular feita desde então, A Lista de Schindler gerou a USC Shoah Foundation e marcou a representação cinematográfica do Holocausto, O Resgate do Soldado Ryan reescreveu a forma de filmar o combate em quase tudo o que se fez de cinema de guerra nas últimas três décadas, e a trilogia involuntária dos anos 2000, Minority Report, Guerra dos Mundos e Munique, segue sendo retomada como uma das tentativas mais sérias do cinema americano de elaborar, em chave popular, o trauma ético do mundo pós-11 de setembro.

Menos visível e igualmente decisiva é a herança autoral, a defesa obstinada da emoção como gesto cinematográfico legítimo em uma cultura crítica que muitas vezes confunde controle estético com frieza, e a coerência rara de uma obra que jamais perdeu de vista um pequeno conjunto de obsessões íntimas, o céu, a paternidade, a infância, a alteridade, o impossível. Disclosure Day, em 2026, é o retorno explícito a esse núcleo, e é também o gesto pelo qual Spielberg, aos setenta e nove anos, volta a se perguntar diante de uma câmera o que perguntou pela primeira vez aos dezessete, em Firelight, se eles vierem e se nós descobrirmos, o que faremos com isso? Não é uma pergunta que seu cinema permita encerrar, e justamente por isso ele segue sendo visto, estudado, e segue exigindo um tipo de espectador disposto a olhar para cima sem virar o rosto.

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