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O cineasta que filmou a guerra que nunca pôde lutar

Poucos nomes da New Hollywood carregam tantas contradições quanto John Milius. Em pouco mais de duas décadas de carreira no cinema, dirigiu apenas sete longas, e escreveu ou reescreveu alguns dos filmes mais influentes de sua geração. Conservador assumido numa indústria majoritariamente liberal, entusiasta de armas, fascinado por combate e por códigos de honra, ele ergueu uma persona tão marcante quanto polarizadora. Hoje é, ao mesmo tempo, uma referência para cineastas e um nome que o grande público quase esqueceu.

Vida

John Frederick Milius nasceu em St. Louis, no Missouri, em 11 de abril de 1944, o caçula de três filhos de um fabricante de calçados. Quando tinha sete anos, a família se mudou para Bel Air, na Califórnia, e o menino se tornou surfista dedicado, experiência que, décadas depois, alimentaria Amargo Reencontro (Big Wednesday). Leitor voraz na adolescência, cultivou cedo o fascínio por história militar, cultura japonesa e artes marciais.

No fim dos anos 1960, tentou se alistar para servir na Guerra do Vietnã, mas, segundo o próprio Milius, foi barrado por causa de uma asma crônica. A rejeição o marcou fundo: ele diria mais tarde ter “perdido a sua guerra”, e atribuía a esse episódio a obsessão pelo tema que percorreria toda a sua obra.

Formou-se na escola de cinema da Universidade do Sul da Califórnia (USC), onde despontou na geração que ficaria conhecida como “USC Mafia”, ao lado de amigos como George Lucas. Depois de anos de sucesso e de reveses, incluindo a perda de boa parte de sua fortuna, no início dos anos 1990, migrou aos poucos para a televisão.

Em 2010, enquanto desenvolvia uma cinebiografia de Genghis Khan, sofreu um AVC que o deixou temporariamente sem fala e movimento. Recuperou-se fisicamente, mas o episódio encerrou, na prática, sua atividade como roteirista e diretor. Com base em relatos de 2025, Milius enfrentava um câncer de pâncreas em estágio avançado.

Estilo e método

Milius firmou-se primeiro como roteirista. Ainda nos anos 1970, escreveu Jeremiah Johnson (1972), colaborou nos dois primeiros filmes do Dirty Harry e assinou falas que entrariam para a cultura popular, entre elas, parte do monólogo do USS Indianapolis em Tubarão e o célebre “Go ahead, make my day”, dito por Clint Eastwood como o inspetor Harry Callahan. Foi também autor da primeira versão do roteiro de Apocalipse Now, adaptando Coração das Trevas, de Joseph Conrad, trabalho que lhe renderia a indicação ao Oscar.

Como diretor, estreou em Dillinger (1973) e desenvolveu um cinema de temas recorrentes: masculinidade, honra, lealdade, o herói mítico e a fascinação pela guerra e pela violência. Esse repertório atinge o auge nos anos 1980, com Conan, o Bárbaro (1982), co-escrito com Oliver Stone, e Amanhecer Violento (Red Dawn, 1984), que entrou para o Guinness como o filme mais violento já feito até então. Mas o mesmo diretor assinou Amargo Reencontro (1978), um dos retratos mais delicados que o cinema fez sobre amizade e passagem do tempo, prova de que sua obra nunca coube num rótulo só. Ao longo da carreira, atuou ainda como requisitado “script doctor”, reescrevendo roteiros alheios numa função quase invisível que ampliou sua influência muito além dos filmes que assinou.

Prêmios e reconhecimento

O maior reconhecimento formal de Milius veio em 1980, com a indicação ao Oscar de Melhor Roteiro Adaptado por Apocalipse Now, dividida com Francis Ford Coppola. Mais tarde, foi co-criador de Rome (2005–2007), série da HBO e BBC vencedora do Emmy. Em 2013, sua trajetória ganhou um documentário próprio, Milius, com depoimentos de nomes como Lucas, Spielberg e Schwarzenegger. 

Diferentemente de vários autores de sua geração, porém, Milius nunca foi um cineasta de premiações de festival: seu reconhecimento se deu menos em troféus e mais em influência.

Legado

O legado de Milius é feito de paradoxos. Ele influenciou diretamente a geração que redefiniu Hollywood, foi inspiração para personagens como o John Milner de American Graffiti, de Lucas, e o Walter Sobchak de O Grande Lebowski, dos irmãos Coen. Fora do cinema, teve papel importante na fundação do UFC, ao lado de Art Davie e Rorion Gracie; a ele se atribui a ideia da jaula em formato de octógono, embora a autoria exata seja objeto de disputa.

Ao mesmo tempo, sua trajetória mostra como a política pode moldar a memória de um artista. Republicano declarado numa indústria de maioria liberal, Milius afirmou mais de uma vez ter sido “colocado na geladeira” por causa de suas posições, uma marginalização que comparava à dos roteiristas perseguidos nos anos 1950, com os papéis ideológicos invertidos. Mas independente de qualquer coisa, Milius é indiscutivelmente um dos maiores nomes da New Hollywood!

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