O diretor que parou de filmar no auge
Poucos cineastas europeus construíram uma obra tão coerente em tão pouco tempo quanto Krzysztof Kieślowski. Passou dez anos fazendo documentário na Polônia antes de virar ficção, e em pouco mais de uma década de longas se tornou um dos nomes mais reverenciados do cinema mundial. Filmava gente comum: operário, funcionário público, estudante, vizinha de prédio. Nunca julgava ninguém. E quando o mundo inteiro queria ver o próximo filme, anunciou que não ia filmar mais.
Vida
Krzysztof Kieślowski nasceu em Varsóvia em 27 de junho de 1941, no meio da Segunda Guerra. A infância foi de mudança constante: o pai tinha tuberculose e a família acompanhava os sanatórios pelo país. Estudou numa escola técnica de teatro em Varsóvia e só depois decidiu que queria dirigir.
A entrada na Escola de Cinema de Łódź, a mais prestigiada da Polônia, custou caro. Foi reprovado duas vezes antes de ser aceito na terceira tentativa, e costumava brincar que só entrou porque insistiu demais. Formou-se em 1969 e passou a década seguinte trabalhando dentro do sistema estatal de cinema polonês, no estúdio de documentários de Varsóvia.
Nos últimos anos, com saúde debilitada e um histórico de problemas cardíacos, decidiu encerrar a carreira depois de terminar a Trilogia das Cores. Morreu em Varsóvia em 13 de março de 1996, aos 54 anos, de complicações após uma cirurgia no coração.
Estilo e método
Kieślowski começou fazendo documentário, e nunca abandonou de todo o olhar que treinou ali. Fábrica, repartição pública, hospital, quartel. Fazia parte de uma geração de documentaristas poloneses movida por uma constatação simples: o país estava ali, funcionando, com milhões de pessoas dentro, e quase nada daquilo tinha imagem. Ele descrevia a própria função em termos literais, queria descrever o mundo, colocar no filme coisas que ainda não tinham nome.
A virada para a ficção não foi estética, foi ética. Durante uma filmagem numa estação de trem, a polícia procurou a produção querendo o material bruto por causa de uma investigação em curso. Não deu em nada, mas o susto foi definitivo. Kieślowski entendeu que apontar a câmera para uma pessoa real é produzir uma prova, e prova sai do seu controle no instante em que existe. Ator chora e vai para casa. Curiosamente, passou a defender que a ficção chega mais perto da verdade das pessoas do que o documentário, porque no documentário há sempre uma porta que você não pode atravessar.
O método dependia de um time fixo. O roteirista Krzysztof Piesiewicz, advogado de formação, assinou com ele toda a obra tardia. O compositor Zbigniew Preisner fez a trilha de praticamente tudo. Juntos, criaram uma das melhores piadas internas do cinema: inventaram um compositor holandês do século XVIII chamado Van den Budenmayer, citado por personagens em vários filmes como se fosse um clássico estabelecido. Ele nunca existiu — as músicas são do Preisner.
Prêmios e reconhecimento
O reconhecimento internacional veio com Não Matarás (1988), premiado em Cannes e vencedor do primeiro Prêmio do Cinema Europeu de melhor filme. Na sequência, a Trilogia das Cores rendeu o Leão de Ouro em Veneza por A Liberdade é Azul (1993) e o Urso de Prata de direção em Berlim por A Igualdade é Branca (1994). A Fraternidade é Vermelha recebeu três indicações ao Oscar em 1995 (direção, roteiro e fotografia) em meio a uma polêmica sobre a elegibilidade do filme, inscrito pela Suíça.
Ganhar nos três maiores festivais da Europa em ciclo tão curto colocou Kieślowski numa posição rara. Ele saiu dela por vontade própria.
Legado
O Decálogo (1988), dez filmes de uma hora, um para cada mandamento, todos no mesmo conjunto de prédios em Varsóvia, é hoje citado com regularidade entre as maiores obras já feitas para televisão, e influenciou diretamente a ideia de que série pode ser cinema. A Trilogia das Cores atravessou trinta anos sem envelhecer e segue em circulação restaurada.
Mas o que sobrou de Kieślowski não é uma técnica copiável nem um estilo visual reconhecível de longe. É uma postura. Ele entendeu que a vida das pessoas não é feita de grandes decisões, e sim de escolhas pequenas tomadas às pressas, que a gente só compreende anos depois. Um telefonema atendido, uma rua escolhida, alguém que passou por você. E não entregava lição de moral: entregava o problema inteiro e saía da frente.
É por isso que continua doendo trinta anos depois.




