A Morte num Beijo (1955, Robert Aldrich)
Lançado em 1955, “Kiss Me Deadly” é um dos grandes clássicos do cinema Noir.
Todos os conceitos que formam o gênero, desde a estrutura do roteiro até elementos formais, estão aqui. Ao mesmo tempo, o filme também subverte algumas normas clássicas, o que evidencia o seu nível de ambição. Logo na abertura, numa estrada escura e vazia, Mike se depara com Christina, uma mulher desesperada, que afirma estar sendo perseguida. Mike, então, dá uma carona, mas é emboscado e atirado de cima de um penhasco.
Por sorte, ele sobrevive e, em vez de ficar na sua, decide investigar o caso. A sina dos detetives particulares é essa. Há um componente obsessivo na personalidade desses homens, destinados a atravessarem os mais diversos traumas. Mike, seguindo a cartilha do gênero, segue um código moral próprio, não dando ouvidos às autoridades e investigando por conta própria, ainda que sua licença tenha sido revogada. Uma das principais particularidades do Noir é a presença feminina. Em “Kiss Me Deadly”, temos algumas mulheres que influem diretamente na trama. A começar por Christina, cujo mistério inicial já a coloca no hall de grandes personagens do gênero. Ainda temos Velda, assistente do protagonista, com quem ele mantém um caso, e Lily Carver, a verdadeira “Femme Fatale” do filme; afinal, é quem, através de sua aparência e aparente vulnerabilidade, forja uma identidade, escondendo suas reais intenções. Mike é um detetive competente, mas não faz ideia do tamanho da encrenca na qual está se metendo. A cada novidade e embate, é como se ele desse mais um passo rumo ao inferno. O diretor Robert Aldrich traduz essa agressividade em sua encenação. O grande vilão só tem seu rosto exposto nos minutos finais. Sempre que vemos um pé, por meio de um ângulo baixo, sabemos que se trata desse personagem e que algo brutal está prestes a acontecer – o entendimento da gramática visual cria mitos e um clima de apreensão sem exposições desnecessárias.
As sombras detêm um papel essencial na narrativa, alimentando o mistério e a tensão, além de servir para o julgamento moral. O contraste entre sombra e luz – Chiaroscuro – é a grande marca do trabalho de fotografia. O rosto de Mike, quando fortemente iluminado, é o retrato de um homem que perdeu o controle sobre as próprias emoções. Sua gradual falta de paciência, o ódio que seus olhos transmitem e a sensação de estar perdido são minuciosamente pontuados por Aldrich e Ernest Laszlo, diretor de fotografia – nesse sentido, a predileção por enquadrar o protagonista, em diálogos enervantes, por meio de contra-plongées é fundamental para salientar a imposição que ele tenta estabelecer. Há um contraste, exercido por plongées, que funciona justamente para reforçar sua vulnerabilidade dentro do caso. Eu também gosto de como Aldrich, em situações específicas, distribui espacialmente os personagens, deixando os antagonistas ao fundo, associados às sombras, na cola de Mike. A brutalidade não é apenas sugerida; para um filme de 1955, Aldrich se mostrou bastante audacioso, retratando a violência de uma forma honesta, que conversa com aquele universo.
Em sua busca pela verdade, Mike fica tão cego que coloca alguns amigos e colegas em perigo, atraindo uma trilha de sangue. Esse é um dos motivos de seu ódio crescente, direcionado aos antagonistas e a si próprio. O roteiro, como em outros clássicos Noir, é repleto de reviravoltas e novos elementos que tornam a trama (num bom sentido) difícil de acompanhar – esse é um dos charmes do gênero. O MacGuffin, objeto desejado pelos personagens, é uma caixa. É aí que as coisas ficam meio bizarras, fugindo das convenções. A fim de elaborar um comentário sobre a paranóia em torno da Guerra Fria, o roteiro coloca como elemento-chave uma caixa que guarda um componente radioativo, de proporções gigantescas. No fim, entramos num terreno digno de “ficção científica”, que acaba sendo perfeito para amarrar o arco de Mike. À distância, no mar, ele observa o fogo e a fumaça do inferno do qual conseguiu escapar.
Ralph Meeker oferece uma performance de almanaque, personificando as ambiguidades morais, o charme e a decadência do “herói” Noir. O restante do elenco atua como uma engrenagem, entendendo muito bem seus arquétipos e as singularidades de seus personagens. “Kiss Me Deadly” é um filme intenso e elegante, um dos melhores da carreira do mestre Robert Aldrich.




