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A Força do Mal (1948, Abraham Polonsky)

Em “Force of Evil”, Abraham Polonsky nos apresenta um universo apodrecido. Joe Morse é o advogado/braço direito de Ben Tucker, o gângster que controla o sistema lotérico em Nova Iorque. A fim de unificar a loteria, há de haver uma manipulação no sorteio que leve as pequenas bancas à falência. O problema é que o gestor de uma dessas bancas é Leo, irmão mais velho de Joe. Esse é um filme que dialoga muito com a carreira de James Gray, por exemplo. Os laços familiares podem acabar sendo um tormento, motivo de lamento.

Leo abdicou de suas ambições para cuidar dos pais e garantir que o caçula pudesse se tornar um advogado. Joe aprendeu a agir como um criminoso; sua vida gira em torno de golpes e trapaças. Ao conversar com Doris, assistente de Leo, fica nítido que o protagonista não entende princípios básicos, valores morais que regem a sociedade e as pessoas bem-intencionadas. Joe fala sobre ganância como uma filosofia pessoal. Sua intenção, por mais desastrada que seja, é proteger o irmão, impedindo que ele se dê mal com a redistribuição dos jogos ilegais. Todavia, quanto mais adentramos os meandros da sujeira, mais cientes ficamos da impossibilidade de sair ileso. Leo sempre será um peixe pequeno, descartável para os gângsteres. Joe começa com um ânimo ingênuo, típico de quem passou a acreditar numa mentira e que se coloca à disposição para retribuir o irmão pelos favores do passado. O arco do protagonista é sobre questionar a própria existência, passar a sentir asco de si e buscar algum tipo de redenção. Doris é uma jovem simples, que preza pela segurança e por prazeres cotidianos. O charme de Joe a conquista, mas a relação vai muito além dessa primeira camada: estar ao lado de Doris significa se reconectar com a pureza humana. O inicial jogo de sedução se transforma numa chance de retornar aos trilhos corretos. 

Se eu citei Gray, é porque estamos falando de um filme com atmosfera fatalista e trágica, cercado por laços sentimentais. Polonsky encena tudo de forma opressiva, empurrando os mais fracos contra a parede. Ao entrar na nova banca, Bauer, contador de Leo, encontra a sala rodeada de bandidos – o bastante para captarmos o medo experimentado pelo personagem. Nesse sentido, as sombras são fundamentais, potencializando o medo, a coação e, por vezes, o fracasso sentido por Leo. As sombras também marcam o rosto de Joe, salientando sua imoralidade, e fornecem um alto grau de tensão ao clímax. Polonsky demonstra fascínio pelo rosto do protagonista – ali está sua tese sobre aquele universo, o peso dramático da vida criminal e o remorso por abandonar o único ente querido. Em um momento vital, no qual Joe descobre que a polícia grampeou os telefones do escritório, o diretor corta para um plano-detalhe de seus olhos, ressaltando seu lado inseguro e vulnerável. Em contrapartida, ao abrir o quadro, destacando Joe sozinho, na rua vazia, Polonsky nos dá a dimensão do vazio que o assola. 

E, claro, existe o charme inerente ao gênero Noir. O bar de jazz, os ternos e os chapéus são elementos bastante evocativos, que conferem profundidade ao universo idealizado pelo diretor. O voice-over funciona para dar agilidade à narrativa e, principalmente, para reforçar o peso do arco do protagonista, o encarregado da narração. John Garfield oferece uma performance enérgica, calcada num charme caótico. Sua confiança é, aos poucos, abalada pela realidade. Joe não pode salvar Leo e percebe isso tarde demais. Garfield é um ator cuja densidade casa perfeitamente com o cinema Noir.

“Force of Evil” foi a estreia de um cineasta que nos deixou com um gostinho de “quero mais”. Polonsky podia ter sido um dos grandes.

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