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Por Amor Também se Mata (1951, John Berry)

“He Ran All The Way” é uma aula de concisão narrativa. Em menos de 80 minutos, o diretor John Berry alcança um nível raro de profundidade e tensão. Nick é um homem desempregado e sem grandes ambições. Sua mãe, com quem ele vive, faz questão de humilhá-lo constantemente. Al Molin, o único amigo de Nick, planeja um simples assalto. Por azar e por inexperiência da dupla, inicia-se um tiroteio com um policial, obrigando o protagonista, o único sobrevivente, a fugir com o dinheiro.

Não é nenhum exagero dizer que a introdução é perfeita. Primeiro, temos noção da pressão que Nick sofre em casa. Depois, a fotografia nos insere num cenário intoxicado pelo calor – o destaque para o ventilador no bar, ao fundo, é um detalhe importante. A temperatura é um indício de tensão, que é reforçada por close-ups e por um ângulo holandês no momento da fuga. Em poucos minutos, já temos um cenário caótico, bem desenhado: Nick foi visto e a polícia está de olho. Ele decide se misturar com as pessoas, entrando numa piscina pública, onde conhece Peg. O protagonista a acompanha até sua casa e decide ficar lá até pensar em um plano melhor, fazendo a família inteira de refém. O roteiro poderia focar apenas em Nick, mas entende que, “do outro lado”, há seres humanos com questões igualmente interessantes. Por que Peg se afeiçoa tanto pelo assaltante? Trata-se de uma jovem insegura e romântica, que idealiza cenários e que acreditou estar diante de uma dessas belas histórias de amor. A família unida é o tipo de núcleo que Nick desconhece. Estar ali também significa presenciar o afeto que lhe foi negado. 

Todos estão com medo. A família, pela impotência sentida dentro da própria casa, e o protagonista, pela iminência de um trágico desfecho. John Garfield oferece uma performance nervosa, cheia de tiques e maneirismos, quase psicótica. Nick está sempre olhando para a janela, desconfiando de tudo e ameaçando a família; todavia, em outros momentos, cuida e se preocupa com a matriarca, que desmaia, e deixa que Tommy, o caçula, golpeie-o, basicamente admitindo que é, de fato, um sujeito covarde. Essa dualidade traz energia à narrativa e humaniza um personagem que poderia ser uma figura unidimensional. O arco emocional de Peg é complexo, começando com a ingenuidade romântica e terminando com um misto de pânico, paixão e remorso. Ao mesmo tempo em que teme o protagonista e as suas possíveis ações direcionadas à sua família, ela não consegue esconder o carinho que sente por ele. A cada “investida” de Nick, o rosto de Peg transmite um mar de emoções contrastantes. 

Berry retrata a posição do protagonista na casa, colocando-o no centro do ambiente e das ações – o uso de contra-plongée também entra nessa equação. O cineasta transmite essa imponência sem se esquecer da vulnerabilidade que acomete Nick, atento às novidades dos jornais. Berry repete uma interessante lógica visual: um personagem em primeiro plano e outro, ao fundo. Assim, ele estabelece uma relação de domínio/subordinação ou ressalta a fragilidade velada da pessoa em primeiro plano – em filmes que se restringem a um único ambiente, padrões visuais são fundamentais. Durante o café da manhã, Nick se senta, enquanto os demais ficam de pé, imóveis, ao redor dele. O único que se aproxima do protagonista é Tommy, num gesto sutil, mas que salienta a inocência infantil. No fim, tudo se resume à capacidade de confiar em alguém. Nick nunca amou ninguém. Peg diz estar disposta a ajudá-lo a fugir. Ah, o cinema Noir e sua poesia trágica. 

Como mencionei acima, John Garfield oferece uma performance magistral, fundamental para a manutenção de um ritmo intenso. Essa foi sua última interpretação. Um ano depois, aos 39 anos, ele faleceu. Shelley Winters é o contraponto ideal. Sua personagem é tão delicada, que parece estar prestes a derreter. 

“He Ran All The Way” é uma preciosidade do grande cinema hollywoodiano da década de 50.

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