Days of Thunder (1990)
“Dias de Trovão” começa com imagens de um céu alaranjado.
Tony Scott é um dos grandes autores do cinema popular americano; sem dúvida alguma, o que toma mais riscos e explora o potencial máximo das imagens nas grandes telas. Quando Harry é convencido a construir um carro para uma nova equipe da Nascar, surge a dúvida de quem será o piloto. A resposta é arrebatadora: Tom Cruise… quero dizer, Cole Trickle surge envolto à fumaça, com um sobretudo, óculos escuros e luvas, pilotando uma moto imponente. Trata-se da introdução de um mito, de alguém que vai dominar o filme.
No início, Cole e Harry se provocam e deixam uma certa tensão no ar. No primeiro encontro, Scott, em meio a uma conversa definitiva, fecha o quadro, indo de rosto a rosto. Ali, temos noção de que estamos diante de uma dupla vencedora, que fará o possível para vencer e superar qualquer adversidade. Nas sequências de corrida, Scott prova ser um verdadeiro esteta do calor e da adrenalina. Ele varia os ângulos, afastando e aproximando o espectador da ação, captando o impacto inerente ao automobilismo. Scott consegue mostrar quão traiçoeira pode ser uma corrida da Nascar e as manobras sujas, porém legais que os pilotos realizam. É na pista que se inicia a rivalidade entre Cole e Rowdy. Depois, após um grave acidente, os dois se tornam grandes amigos, que confidenciam suas maiores vulnerabilidades. Esse é um dos grandes baratos de “Dias de Trovão”: os personagens não são mecanismos narrativos. Robert Towne, o roteirista, demonstra um enorme respeito por cada um, inserindo diferentes camadas, traumas do passado, além de estabelecer relações genuínas, que elevam a narrativa de um ponto de vista emocional.
Scott, ciente do material que tem em mãos, mostra-se sempre presente, filmando os personagens e seus sentimentos. No hospital, quando Rowdy pede um favor ao protagonista, os rostos de ambos estão divididos por sombras – aquele ambiente é o único que aflora os medos e os receios de homens que vivem com a constante ilusão de controle. Em outro momento, Cole faz perguntas a Harry sobre o seu passado e a morte de um de seus pilotos. O lugar, escuro, é tomado por tons azulados, realçando a vulnerabilidade e a intimidade da situação. A relação entre os dois passa a ser de pai e filho – figuras que eles não tiveram em suas vidas e encontraram tardiamente, no esporte. Harry é o coração; é quem doma Cole e desperta sua melhor versão. O roteiro também investe numa trama amorosa. Essa foi a primeira vez em que Cruise e Kidman dividiram a tela. A química é notável, servindo ao romance, ao amadurecimento do protagonista e, também, ao humor. Cole é um jovem ambicioso e destemido, mas incapaz de admitir fragilidades. Claire, sua médica e namorada, traz tais verdades à superfície, obrigando o piloto a superar adversidades internas. Como mencionei, os toques cômicos são muito bem distribuídos, temperando a narrativa. O que falar da sequência em que Cole e Rowdy, em cadeiras de roda, disputam uma corrida no corredor do hospital? A pegadinha que a equipe prega no protagonista é excelente, principalmente por preparar o terreno para outra cena, ainda mais engraçada. Scott, ao enquadrar a gargalhada de Harry entre Cole e Claire, demonstra ter tato para a comédia.
Ainda temos as figuras antagônicas, que rivalizam com o protagonista dentro e fora das pistas. Tim é o empresário ganancioso, pouco interessado no ser humano; enquanto Russ é o piloto metido, que rouba a vaga com arrogância, sem pedir permissão. Tudo culmina na icônica corrida de Daytona, onde os astros se alinham e Scott nos premia com seu talento para filmar a velocidade. Na trilha sonora, Hans Zimmer embala as corridas, aparecendo de forma moderada, sem roubar a atenção para si. Além de Cruise e Kidman, o elenco conta com nomes da estirpe de Robert Duvall, Randy Quaid, Michael Rooker, John C. Reilly e Cary Elwes.
Assistir a “Dias de Trovão” me levou à seguinte constatação: que falta o grande Tony Scott faz. É muito difícil encontrar entretenimento desse nível atualmente.




