Inimigo do Estado (1998)
Tony Scott é um dos cineastas mais subestimados de Hollywood. Em 2012, ele, infelizmente, nos deixou. Sua potência ao filmar e a ousadia ao explorar a linguagem cinematográfica fazem falta.
Nas mãos de um diretor menos habilidoso, “Enemy of the State” seria um entretenimento divertido, porém esquecível. Scott incorpora o caráter tenso e caótico das tramas de seus filmes às imagens. Não é sobre acompanhar uma história bacana, com reviravoltas, mas sobre como o frenesi se traduz esteticamente.
Robert Dean é um advogado correto e atencioso. Quando ele confronta um mafioso, Scott não precisa de muito para ressaltar sua firmeza e crença em princípios éticos: de um lado da mesa, a máfia inteira, do outro, Dean, sozinho. A NSA (Agência de Segurança Nacional) é retratada, logo no início, como uma corporação sem escrúpulos, que não mede esforços para eliminar aqueles que não estão ao seu lado – personificada por Reynolds, interpretado por Jon Voight, cuja frieza é digna de um psicopata. Após o assassinato de um congressista, brilhantemente mascarado como um acidente pelos agentes, a NSA descobre que, por acaso, alguém filmou tudo. Inicia-se, então, uma perseguição pela fita, que acaba parando no colo de Dean. Ele não faz ideia do que tem em mãos; na verdade, nem sabe que a fita foi colocada em sua sacola de compras. O roteiro introduz o conceito hitchcockiano do “homem errado”, obrigando o protagonista a lutar pela própria vida sem ter nenhum tipo de envolvimento no caso em questão. O grande ponto levantado é: a NSA existe para proteger a sociedade de ameaças secretas ou para ameaçar sua segurança? O conceito de privacidade fica distorcido – o fato de as imagens via satélite serem captadas por plongées é essencial para reforçar a vulnerabilidade daquele que está sendo vigiado. Grampos, escutas, câmeras… tudo está sendo visto a todo instante. Não há escapatória. O problema maior não é a tecnologia, mas quem a controla. A NSA, aqui, é composta por criminosos.
Da noite para o dia, Dean tem seus cartões bloqueados, sua casa é vandalizada, seu casamento entra em conflito… enfim, uma bola de neve sem fim. Para piorar, suas roupas e acessórios foram grampeados pelos agentes, que acompanham cada passo e cada palavra que diz. Em um belo enquadramento, vemos a TV, sem sinal, em primeiro plano, e Dean ao fundo, imerso na escuridão – sua imagem está circulando por aí e sua impotência parece incontornável. Quando sua casa é invadida, Scott preza por planos-detalhe, cortes rápidos e tons azulados, destacando a minúcia dos agentes. Na central de controle, os mestres da tecnologia são vistos em planos de perfil ou em close ups nos quais há fios na frente de seus rostos – homens invisíveis, que trabalham em salas apertadas e ninguém faz ideia de quem sejam.
Nas sequências de perseguição, Scott abusa de ângulos holandeses, símbolos da desordem, e demonstra uma ambição imensa em suas escalas. O filme é tomado de momentos assim e o diretor faz questão de não se repetir e de estender a ação a um ponto acima do que estamos acostumados. A forma como a montagem intercala diferentes ângulos, além de reforçar a ideia de vigilância máxima, confere uma intensidade notável às sequências – nesse sentido, a trilha sonora enérgica é um excelente complemento. Scott tem intimidade com a câmera, sabendo a hora exata de movimentá-la com uma instabilidade maior, elevando o senso de urgência e tensão. Brill, vivido pelo saudoso Gene Hackman, é uma figura misteriosa, que, indiretamente, ajudava Dean. Eles finalmente se conhecem e Brill é a chave para que o protagonista consiga se desvencilhar dos agentes e recupere sua vida. No passado, Brill trabalhou na NSA. Em um plano aparentemente ordinário, Scott enquadra Brill atrás de fios (ou algo do tipo), assim como os técnicos da agência – o personagem nos passa a informação e a encenação faz questão de pontuá-la. A dinâmica entre Brill e Dean traz toques precisos de humor à narrativa. As diferentes personalidades e níveis de astúcia funcionam muito bem. O roteiro também acerta na resolução do conflito, matando dois coelhos numa cajadada só.
O elenco é rodeado de grandes nomes, todos em ótima forma: Barry Pepper, Gabriel Byrne, Lisa Bonet, Regina King, Tom Sizemore, Jason Robards, entre outros. Will Smith prova ser dono de um carisma inquestionável. É uma pena. A impressão é de que ele perdeu muito tempo em projetos fracos ou pouco interessantes; sua carreira deveria ser ainda maior.
“Enemy of the State” é uma obra prima. Poucos cineastas conseguem transformar paranoia em linguagem cinematográfica com tanta personalidade quanto Tony Scott.




