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Choses secrètes (2002)

“Choses secretes” é um filme que trata o desejo como um tema complexo e necessário. Não me refiro ao desejo de ir ao banheiro; a obra de Brisseau, em maior ou menor grau, sempre foi erótica e, aqui, ele atingiu o seu ápice. O desejo sexual é um instinto comum à natureza humana. Claro, assim como tudo na vida, existem níveis que determinam o quão saudável é a sua voracidade. Ela parte de uma carência, do despertar de uma libido adormecida? Envolve amor ou é apenas o animal que fala? Trata-se de um ciclo vicioso no qual não se sabe mais distinguir prazer e desconforto? Um jogo de poder? Brisseau, em sua sofisticada carpintaria existencialista, nos brinda com um thriller que brinca com os sentidos e provoca até o último instante.

Nathalie é dançarina numa boate. Sandrine, a barman, fica hipnotizada por suas performances, principalmente pelo fato dela, com sua nudez, movimentos e orgasmos, dominar todos que a assistem. As duas acabam sendo despedidas. Sandrine, sem opção, é acolhida por Nathalie, que a ensina a viver desprovida de autocontrole, conhecendo as possibilidades do próprio corpo. Para a dançarina, aqueles comandos são dogmas batidos; para a barman, é um mundo de novas sensações e possibilidades. O vermelho, predominante na casa de Nathalie, é a cor do amor, da dor, do ódio e do prazer – sentimentos que permeiam e ditam a narrativa idealizada por Brisseau. Amigas e cúmplices, as duas estabelecem novas regras para suas vidas, fugindo daquilo que é socialmente aceito. O que começa como um jogo subversivo, que desperta o que há de mais primitivo em nós, humanos, e que cumpre um papel de estudo sociológico, transforma-se numa rotina em que as apostas são demasiadamente altas. Elas decidem entrar no mercado de trabalho através de seus corpos, com a intenção de seduzir homens poderosos e subir na cadeia social. Antes, Nathalie estipula algumas regras, sendo, a principal, “o amor é o inimigo”. Rapidamente, as duas conseguem vagas importantes num banco. Há dois alvos: Delacroix, cofundador da empresa, e Christophe, CEO e filho do fundador.

A partir daí, o cinismo, que já era considerável, chega a níveis estratosféricos. “A sociedade prova todos os dias que o mérito é a única coisa que interessa”, diz Christophe, conhecido por ter dormido com todas as suas funcionárias. Delacroix é um pai de família; um homem de carreira irretocável que segue o manual da vida convencional e confortável. Ele é o líder do banco, mas Brisseau nos prova que o verdadeiro poder está com aquele que controla o prazer, que é capaz de retirar as máscaras da moralidade e trazer o animal à tona. Não tarda para que Delacroix se encante por Sandrine, entregando-se aos desejos carnais e à intensidade do caso proibido. Brisseau destaca a arquitetura da sedução; os olhares, os silêncios, o desabotoar da blusa e alguns planos-detalhe. O frio escritório, repentinamente, vira uma sauna. A cada flerte de Sandrine, Delacroix fica à beira de explodir. Por ser o mais normal e reconhecível, ele talvez seja o personagem mais interessante de se analisar. A vida ideal não é tão ideal assim. A entrega de Delacroix é a prova de que o homem comum, em sua maioria, perdeu contato com o prazer, tornando-se um ser mecânico e corriqueiro. No entanto, diferentemente dos demais, Delacroix é incapaz de se entregar sem paixão, sem “motivo”. Em determinado momento, ele se assemelha a um leão faminto, devorando duas presas ao mesmo tempo, mas isso parte de uma ideia amorosa. A desconstrução do homem exemplar nos leva à conclusão de que os humanos vivem por suas paixões. Em seu adeus, pelo telefone, Delacroix, sem rancor, agradece a Sandrine por ter permitido que ele conhecesse uma nova parte de si; uma ainda mais amorosa e viva. O que isso significa para seu casamento? Provavelmente nada. Para Sandrine, é um momento de notar a perda de parte de sua humanidade. No momento de choque e decepção, a montagem vai do rosto cabisbaixo para um plongée, em sua sala, escancarando a vulnerabilidade e o vazio sentidos pelo pobre coitado.

Nathalie, trabalhando em outra sede, é parcialmente escanteada pela narrativa. Há mistério e esperança em suas palavras, mas demoramos a descobrir o inevitável: ela se apaixonou pelo charmoso e perigoso Christophe. Lembrem-se, Nathalie e Sandrine são predadoras do erotismo, alpinistas sociais, mulheres que se desprendem de emoções para enganar e persuadir. Dito isso, Christophe, um sociopata assumido, nos leva a um novo universo, que faz aquele apresentado por Stanley Kubrick, em “De Olhos Bem Fechados”, parecer uma festa infantil. Ele é a antítese de Delacroix, sem qualquer rastro de humanidade e compaixão, vivendo somente pelo prazer de dominar e ejacular – embora isso já não lhe dê tanto prazer assim. Ao descobrir as artimanhas da dupla central, Christophe as coloca em seu jogo particular, demonstrando ter, além do poder da sedução, as armas para chantagear. Nathalie, diante da percepção de que o prazer vazio não a serve, fica entregue ao amor em sua faceta mais destrutiva. Brisseau mexe as peças e afirma que no tabuleiro do prazer, o predador pode, rapidamente, virar a presa. Algumas imagens são especialmente fortes, principalmente aquelas em que o cineasta expõe a força do arco das amigas – são rostos destroçados, vencidos pela doença disfarçada de farra. Os corpos, antes símbolos de liberdade, tornam-se prisões de alta vigilância. Christophe é mais do que mau, é quase o anticristo – não à toa, em seu desfecho, a fumaça é flagrante.

No fim, fica claro que apenas aquela que se desvencilha completamente da estrutura de poder atinge uma felicidade estável e mundana. Sabrina Seyvecou, Roger Miremont e Fabrice Deville estão formidáveis em seus respectivos papéis; todavia, a performance mais desafiadora é a de Coralie Revel, que inicia com a frieza de uma dominatrix e termina com as cicatrizes de quem se deixou sentir demais por alguém que não valia nada. “Choses secretes” é a obra prima pela qual Jean-Claude Brisseau merece ser lembrado.

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