Les Savates du bon Dieu (2000)
Em 2000, Jean-Claude Brisseau, responsável por “Céline”, “Coisas Secretas”, “Boda Branca” e outras obras primas, dirigiu o seu filme mais romântico e, possivelmente, político. “Os Indigentes do Bom Deus” entra na seara dos “coming of age”, por tratar de um jovem que, após um baque, precisa repensar sua existência e amadurecer. Os personagens e a estrutura, até certo ponto, remetem a obras da antiga Hollywood, como, por exemplo, “They Live By Night”, de Nicholas Ray.
Brisseau, conhecido por examinar o corpo feminino, prova, novamente, que, quando se há profundidade no discurso, a nudez deixa de ser um tabu, passando a ser necessária. Brisseau é contra a ideia de amor puro, no qual os amantes mal se tocam. Para ele, o prazer, o toque e as curvas do corpo são vitais – sem isso, não há relação. Não à toa, ao pensar em Elodie, Fred a imagina nua, numa cama vermelha. Ela o abandonou sem maiores avisos, deixando apenas uma carta e levando a filha. O motivo? Fred é irresponsável, imaturo e incapaz de pensar no futuro financeiro da família. Na sequência em que o protagonista explode de raiva, após receber a dolorosa notícia, Brisseau, por vezes, posiciona a câmera atrás de portas, mantendo uma distância entre espectador e ação – o conceito do voyeur percorre sua filmografia inteira. Os tons azulados, a escuridão e os espaços precários ressaltam a melancolia, ao mesmo tempo em que denunciam a condição daqueles que vivem na periferia francesa.
Para Brisseau, a maturidade parte da revolução, em seus mais diversos âmbitos. A começar, Fred, a fim de ajudar um senhor que é mal atendido no banco, assalta o estabelecimento e distribui o dinheiro para aqueles que estão na rua. O protagonista deixa de ser um observador ingênuo e se torna um ser ativo na sociedade e na sua transformação espiritual. Sandrine, uma antiga amiga que trabalha no banco, foge com ele. Os dois se escondem numa escola, onde conhecem Maguette, que diz ser um príncipe africano e incrementa toques surreais à narrativa. Maguette é uma espécie de elemento coringa, que se adapta a diferentes papéis e funções para salvar os novos parceiros. Advogado? Professor? Divindade? Maguette é um unificador de ideias, um atalho para chegar ao outro lado. A revolução também pode ser vista na trajetória visual do trio, que chega a uma vila pacata e extraordinariamente linda. A fuga da sociedade é um movimento em direção ao autoconhecimento; longe da confusão urbana, Fred muda certas percepções. Sandrine sempre foi apaixonada por ele. Todas as suas ações são sensíveis e visam o bem-estar do protagonista, que não a enxerga da mesma forma. Elodie representa o primeiro amor; o ápice da experiência carnal, da idealização extrema e da sensação de ser imbatível. Sandrine simboliza a empatia, um passo para o amadurecimento emocional e amoroso. O prazer segue, mas a coisa cresce para um lugar em que cuidado, proteção e confiança são inegociáveis. Brisseau quase sempre trabalha com paradoxos. Aqui, belo e feio; tragédia e felicidade; fúria e calma; prisão e liberdade; inércia e revolução; violência e lirismo dialogam entre si, estabelecendo um mosaico sobre a trajetória dos personagens. O vermelho, presente nas flores e nas roupas, confere intensidade, enquanto os planos abertos das exuberantes paisagens naturais refletem o arco de Fred, que, ao driblar as tentações carnais impostas por uma figura que surge para persuadi-lo, finalmente enxerga Sandrine em sua completude. Além disso, o cineasta, através da comunhão entre estes espaços e os personagens, introduz uma nova noção romântica, mais honesta e doce. Quando Fred e Sandrine fazem amor pela primeira vez, na natureza, o flare traz toques líricos à imagem, dando traços de elevação espiritual ao momento.
Brisseau adiciona elementos do cinema policial, fazendo com que o protagonista vire um Robin Hood moderno, que rouba bancos e correios para ajudar seus amigos. O frenesi das fugas se confunde com a busca por Elodie. No tão aguardado reencontro, fica evidente que, ao se depararem com o muro que divide os seres humanos em diferentes esferas, o antigo casal optou por caminhos opostos – uma rachadura política e social. Elodie, maquiada e envolvida com um empresário corrupto, foi pelo lado da estabilidade corriqueira, sem mérito ou caráter. Ela parece apagada, não tão bonita quanto antes; Fred, em contrapartida, ainda desengonçado, tem convicção de que foi até lá só para tirar uma dúvida. Ele já está decidido: Sandrine é o motor que lhe faltava para assumir responsabilidades. “Você me deu coragem para aceitar a vida. Através de você, eu sei que existo”.
Stanislas Merhar e Raphaële Godin oferecem performances precisas, incorporando um charme melancólico e jovial aos seus personagens. São atores que cativam o espectador mais pela forma que soam diante da câmera do que por um talento notável. Brisseau sabe tirar o que há de melhor de intérpretes assim. “Os Indigentes do Bom Deus” é um filme curioso e delicado que só poderia ser realizado por um diretor que toma riscos e reconhece as nuances da trajetória humana.



