Dirigido por John Milius, “Big Wednesday” é o tipo de filme que não se encontra mais atualmente. É sobre o valor da amizade e maturidade, com imagens que deveriam estar expostas no MoMA. Está na linhagem de “Point Break”, como um grande filme de surfe, e, talvez, neste sentido, ultrapasse-o.
Ao longo de pouco mais de uma década, acompanhamos Matt, Jack e Leroy. Dessa forma, o espectador é convencido a perceber as diferenças que os anos proporcionam. A trilha sonora e o uso de voiceover evocam uma atmosfera nostálgica. A praia é um paraíso solar. A vida no asfalto pode estar confusa, mas, no mar, tudo parece funcionar numa rotação de transcendência espiritual. A opção, principalmente no primeiro “segmento”, por uma estrutura de “hangout movie” é precisa ao estabelecer um vínculo. Estamos com o trio na lanchonete, nas brincadeiras, na festa, nas brigas… a sensação é de pertencimento a um grupo que vive o auge de sua experiência na Terra. Passam-se três anos. Matt, ainda tratado como um mítico surfista da região, mantém-se fiel à imaturidade, passando os dias bebendo. A Guerra do Vietnam bate à porta, convocando jovens a um campo de assassinatos. Jack é o único a aceitar seu dever cívico; os outros, num último respiro de rebeldia jovial, burlam o sistema, inventando falsas enfermidades para fugir. A praia deixa de ser a casa, passando a ser um refúgio da realidade. No mar, eles ainda são os grandes amigos, os surfistas que domam a natureza e encantam a todos. Um dos planos mais extraordinários é aquele em que vemos um dos amigos, na praia, diante do pôr do sol – o tipo de beleza que só se encontra no seu habitat natural.
“A mudança não estava na praia, nas pedras ou nas ondas. Estava nas pessoas”. Do mar, vamos ao cemitério. Aquele clima inicial, de “hangout movie”, esgotou-se. Os anos passam, deixando a impressão de que crescer é desolador. O passado é uma lembrança triste. A farra acabou e, agora, essa compreensão é geral. Milius, em seu roteiro, é empático ao admitir que a maturidade é um processo individual, surgindo em tempos e períodos distintos. No entanto, o que mais me encanta em seu texto é que, por mais que seus personagens abracem a vida adulta, construam famílias e passem a trabalhar, não há uma percepção “superior”, de que a vida adulta é um passo como qualquer outro, tão natural, animador e caloroso quanto os da juventude. Por que será que, ao voltar da Guerra, Jack, antes de visitar a esposa, vai encontrar Matt no mar? Depois de tanto medo, deve haver uma recarga nas forças; um vislumbre do extraordinário. No asfalto, eles sobrevivem; na praia, experimentam algo a mais – cada vez mais raro.
Antes, dificilmente víamos os personagens longe dos tons quentes, guiados pelo azul do céu e do mar; no presente, a fotografia passa a associá-los às sombras, como, por exemplo, no derradeiro encontro entre Matt e Bear, o ídolo daquela geração. Bear simplesmente não conseguiu olhar para frente, sendo atropelado pelo tempo. Matt, por sua vez, estabelecido e crescido, não oferece respostas simples. O salto temporal é maior, tudo soa banal e ele está ciente disso – essa é uma grande demonstração de maturidade. Não enxergamos mais o garoto que almejava o status de lenda, mas um homem consciente, que tenta encontrar luz no cotidiano. Crescer é um movimento de adaptação a um mundo sem heróis, pranchas ou ondas. As responsabilidades assolam o prazer, que deve ser respeitado em ocasiões especiais. Os amigos se distanciam, cada um está calculando suas rotas particulares.
Eis que, no clímax, Milius dá aos seus personagens um momento glorioso. Diria que, um momento glorioso para o cinema. O trio está de volta. A onda se assemelha a uma avalanche. A natureza, assustadora em sua magnitude, é vista com encanto por homens que precisam daquilo para viver. Os planos abertos são realmente impressionantes e a câmera lenta nos prende àquilo, dilatando o tempo e o espaço. Milius também valoriza a intimidade dos personagens com o mar, destacando o toque da mão na água. Em sua carpintaria, o diretor atinge qualidades contrastantes: seu filme é épico, delicado e poético. No fim, aquele momento é, também, uma passagem de bastão. Os adultos reconhecem os novos jovens – um ciclo eterno; a vida em sua essência básica. Milius pontua isso em seu texto e visualmente. Não há a falsa impressão de que aquilo foi um reinício. O que fica é a admiração e o amor pelos amigos. Quem sabe, daqui a alguns meses ou anos eles se reencontrem para mais ocasiões assim. O vento assopra para diferentes caminhos.
O trabalho de montagem é fundamental na fomentação da ideia de maturidade e de um paradoxo. Através de fusões elegantes, vamos de situações banais para a praia, marcando a passagem do tempo. William Katt e Gary Busey estão ótimos, mas é Jan-Michael Vincent quem tem espaço para compor um personagem mais complexo. O arco de Matt é sobre aceitação; uma resignação que vem com o afeto de sua esposa e o entendimento de que nada é para sempre. “Big Wednesday” é uma obra prima que merece ser redescoberta.




