Skip to main content

Em 2009, Michael Mann lançou “Inimigos Públicos”, um dos filmes mais subestimados deste século. Mann, ao lado de Lynch e Ferrara, foi quem melhor entendeu o potencial e a textura do digital. Através de suas lentes estilosas e brutais, ele subverteu um gênero consagrado. Eu começo o texto assim, pois “Dillinger”, embora tenha semelhanças com “Inimigos Públicos”, é um outro tipo de filme, realizado em outro período da história do cinema. Dois mestres contaram a mesma história e ambas merecem ser vistas. 

Em sua estreia, John Milius, na flor da Nova Hollywood, fez um “Bonnie and Clyde” para chamar de seu. Ambientado na década de 30, durante a “Depressão Americana”, “Dillinger é uma ode a mitos do passado; os mitos que formaram os Estados Unidos. John Dillinger não era um assassino. Seu sonho, desde pequeno, era ser um ladrão de bancos. Ele se tornou o maior de todos e gostava de se gabar por isso. Os ternos elegantes e o chapéu são marcas de alguém que pensa na própria imagem. Em seu ofício, Dillinger não era violento, assaltando sem alarde, com instruções e ordens pontuais. Ele é o líder que os comparsas gostam de seguir; um homem adorado por todos aqueles que realmente o conhecem. Do outro lado, Melvin Purvis, do FBI, cujo orgulho pela arma e pelo distintivo que ostenta diz muito sobre o tamanho de seu ego. Purvis não é líder de nada, apenas um capacho de J. Edgar Hoover, o verdadeiro carrasco do protagonista. Em um momento-chave, Purvis, extasiado por ter prendido Dillinger, pergunta a um garoto se ele o reconhece. O garoto, um órfão, diz não ter interesse em se juntar ao governo, tendo Dillinger como grande ídolo. Como assim? As posições se inverteram? Em um período de escassez de recursos básicos e miséria extrema, quem é venerado pelas crianças? Aquele que faz das ruas um banho de sangue ou o outro, que, graças ao seu carisma e lábia trapaceira, rouba bancos? A lei não significa nada. Purvis é um símbolo esvaziado. 

Quando não há um embate, vemos Dillinger com Billie Frechette, sua amada, em espaços abertos e passeios de barco. Seu pai até desaprova sua conduta, mas não deixa de amá-lo. Há verdade e pureza no protagonista. Seu lado bruto surge quando precisa convencer Billie de que ela é a mulher de sua vida. Dillinger é um cara de convicções e, ao vê-la pela primeira vez, o cenário já estava formado. O filme de Mann explora mais as nuances desse relacionamento; todavia, Milius encontra uma química maior, compensando certas partes. Purvis, por sua vez, aparece sempre tramando algo. O seu voiceover ressalta a sua obsessão pela gangue e por agradar Hoover. Sua presença não é atrativa; não existe carisma ali. Sem Dillinger, Purvis seria um esquecível oficial do governo – a recíproca não é verdadeira. Dillinger, nos poucos minutos que tem com os policiais, parece ser capaz de convencê-los a pular a cerca, tamanho é o seu carisma. Em termos de reconstituição de época, o trabalho de direção de arte é primoroso. Somos transportados a um período de ruas vazias, construções humildes, padronização na arquitetura e restaurantes luxuosos. Os carros, os figurinos e as armas são detalhes que também conferem uma importante autenticidade à obra. 

A fotografia não disfarça sua preferência por tons frios, evidenciando a situação no país, mas sabe a hora de destacar o espírito sedutor de Dillinger, principalmente nas já mencionados momentos com Billie. As sombras acompanham o FBI, que age na surdina, iniciando a sanguinolência. Milius não economiza nas sequências de ação. Para o cineasta, a elaboração de um mito depende muito da forma como ele morre. Os personagens disparam tiros com uma potência descomunal. Tudo é grandioso e realista, sem espaço para o glamour. O clímax é uma verdadeira aula de encenação e da arte de dilatar o tempo, conferindo o real tamanho da morte do ícone máximo. A trilha sonora traz um clima irônico que casa perfeitamente com a personalidade de Dillinger. Eu também gosto de como a inserção de capas de jornais e fotos dão uma considerável agilidade à narrativa. Para um estreante, Milius sabia muito bem o que estava fazendo. Seu filme deveria estar no panteão dos clássicos do gênero.

No centro disso tudo, está o lendário Warren Oates, um ator acostumado a interpretar figuras ambíguas e cativantes. Oates é dono de um charme diferente, que não tem a ver com o dos grandes galãs de Hollywood. Ele capta a aura mítica do protagonista com extrema naturalidade. O elenco ainda conta com Ben Johnson, Harry Dean Stanton e Richard Dreyfuss.

O que você achou deste conteúdo?

Média da classificação / 5. Número de votos:

Nenhum voto até agora. Seja o primeiro a avaliar!