Blind Chance (Przypadek, 1987)
Em “Sorte Cega”, Kieslowski realiza um estudo minucioso sobre um de seus assuntos prediletos: o acaso. Muitos dizem que tal coisa não existe, que somos donos de nossos próprios destinos. Ledo engano. A partir de três desenvolvimentos possíveis de uma mesma situação, o diretor ressalta que um mínimo detalhe é suficiente para mudar uma existência inteira. Antes, através de planos subjetivos, vemos alguns flashes da vida do protagonista, o que funciona para estabelecer, de imediato, uma identificação com o espectador. O pai de Witek faleceu. Ele queria que o filho fosse médico; no entanto, no leito de morte, mudou de opinião. Witek, a fim de arejar a mente, decide viajar para Varsóvia.
Kieslowski trata o acaso como o grande regente do universo, colocando o ser humano numa posição transitória, de constante adaptação. Como mencionei acima, vemos três versões da ida atrasada do protagonista à estação de trem. Pouca coisa se altera. A mudança mais significativa, que representa uma fração de segundos, é a forma como ele esbarra em um homem que carrega uma cerveja. Na primeira versão, Witek encosta de leve, sem deixar a bebida cair; na segunda, o encontrão acarreta a queda da cerveja; e na terceira, os dois se embolam levemente. Kieslowski sempre destaca a moeda no chão e uma senhora, conferindo coesão ao seu discurso. “Sorte Cega” é um filme estupendo, justamente por colocar o espectador numa rara posição de reflexão e fragilidade. Qual foi o acaso que me trouxe a esse momento? Por que estou escrevendo essa crítica? Deve haver outra versão minha em outro lugar, provavelmente mais bem-sucedida. O fato é que cada versão leva Witek a uma realidade completamente diferente.
No primeiro cenário, o protagonista alcança o trem, onde conhece Werner, um antigo membro da resistência comunista. Witek é um jovem à deriva, em busca de pertencimento, de alguém que o acolha. Nesse sentido, Werner funciona como um guia político e intelectual, colocando-o em contato com o partido comunista. Rapidamente, Witek, amparado também por Adam, se estabelece como uma figura importante naquela conjuntura política. Ele é um idealista, acredita nas ideias que escutou e leu, mas ainda não sabe o que significa fazer parte de um partido. Witek reencontra Czuszka, seu primeiro amor, e engata um romance. Ela é uma militante do partido de oposição. Seus encontros são registrados em espaços escuros, com os rostos marcados por sombras. Sabemos que aquilo não dará certo. Não tarda para que Czuszka seja apreendida pela polícia e para que Witek, revoltado com seus colegas, entenda que os partidos pensam apenas na manutenção do poder, sem medir esforços para tal.
No segundo cenário, Witek perde o trem e acaba se envolvendo numa briga com policiais, sendo obrigado a passar 30 dias em liberdade condicional e a realizar trabalho comunitário, onde conhece Marek, líder da juventude opositora, um grupo extremista. Novamente, Witek prova estar em busca de apoio e companhia. As roupas pretas, o depósito, os encontros clandestinos e as tarefas são uma tentativa de ressignificação da própria vida – ou seja, o protagonista não tem convicções políticas; apenas a convicção de que não quer ficar sozinho. Seu movimento mais significativo em direção à busca por sentido é a crença no catolicismo. As imagens da cruz e de Jesus crucificado salientam essa nova fase. Witek reencontra um antigo amigo e se envolve romanticamente com Werka, sua irmã. Em um momento de intimidade, Witek e Werka conversam sobre suas vidas. Kieslowski não precisa de muito para desvendar a personalidade de seu protagonista: ele passa o tempo inteiro de costas, num reflexo de quem quer se expor, mas é frágil e tímido. Ao enquadrá-lo por meio de um plongée, voltando para casa, o cineasta revela a vulnerabilidade daquele que se coloca contra o Estado. O mesmo vale para a cena em que Witek é interrogado pela polícia, numa sala fria, num plano fechado. As coisas desandam; todavia, diferentemente do primeiro segmento, o protagonista, dessa vez, tem algo a se apegar: a fé.
No terceiro cenário, Witek, mais uma vez, não alcança o trem e se depara com Olga, sua ficante na faculdade de medicina. Decidido a levar o namoro adiante e disposto a dar uma segunda chance à carreira de doutor, Witek não tarda a virar pai e a se casar. Formado e concentrado na profissão, o protagonista evita escolher lados políticos. O mais fascinante nesse segmento é a cumplicidade e a intimidade que Kieslowski fomenta entre o casal. Um simples olhar é o bastante para que os dois se envolvam sexualmente; o toque na cama é terno, repleto de carinho. O figurino de Witek é simples, porém ressalta o lugar que ocupa na sociedade e quão respeitado é por seus colegas. Enfim, Witek alcançou a plenitude: uma vida aconchegante, amorosa e plena. Tudo caminhava para um desfecho agradável, até que Kieslowski, nos últimos segundos, retorna ao acaso e à sua força invisível. São créditos finais que deixam o espectador perplexo, completamente abalado e assustado.
A trilha sonora, de Wojciech Kilar, é um show à parte, conferindo o tom ideal à trajetória do protagonista. Boguslaw Linda oferece uma performance intensa, construída a partir da vulnerabilidade de alguém que vive sem propósito. A cada versão, uma nova camada aparece, sem que percamos Witek de vista.
“Sorte Cega” é um filme de uma ousadia imensa em sua estrutura. Uma obra prima extremamente subestimada de um dos grandes mestres do cinema do leste europeu.




