“The Whale”, o novo filme de Darren Aronofsky, é um retrato complexo sobre um personagem que vive a sua autodestruição diária. Em nenhum momento saímos da casa do protagonista, um ambiente caótico, sujo e escuro – belos trabalhos de direção de arte e fotografia -, logo, é óbvio que observamos toda a degradação de Charlie, que, como o título indica, parece uma baleia. Ele come baldes de frango frito, sanduíches de tamanhos impressionantes, doces no café da manhã e janta pizza todos os dias.
O processo é agressivo e triste. Percebam que não utilizei a palavra nojento, pois, ainda que mantenha uma aparência deformada, Charlie é um ser humano sensível, amoroso e ciente de suas ações. Não é apenas fome que o protagonista sente, sua dor é do tamanho de seu corpo, causada pela morte de seu namorado e pela omissão na criação de sua filha. Talvez ele nem se lembre de quando começou a comer, porém sabe exatamente porque continua no processo compulsivo. Sua recusa em ir para o hospital não decorre de falta de dinheiro, mas da vergonha que sente de si e do plano de dar tudo que tem para sua filha.
Sua cuidadora, Liz, não força a barra, sabe onde Charlie quer chegar e apenas oferece um pouco de conforto nos últimos dias que lhe restam. Ela era irmã do namorado do protagonista, que se suicidou graças ao ódio que sua família – fervorosamente religiosa – demonstrou por sua escolha sexual. Liz se culpa, acredita que poderia ter feito algo a mais e se junta a Charlie não por seus dotes médicos, mas por dividir a mesma dor e por ser uma das únicas maneiras de manter a memória de seu querido irmão intacta.
O protagonista é professor de redação e literatura e dá aulas online com a câmera desligada. Além da clara vergonha que sente de seu corpo, o que essas cenas provam é que, por trás de toda a aparência, existe um ser humano e, no caso de Charlie, um com muito a dizer. Textos – seja lá para que sejam – só interessam quando o autor é honesto. Professores precisam educar seus alunos para que eles se tornem pessoas com convicções, personalidade e diferentes perspectivas.
Um suposto missionário bate na porta de Charlie e afirma que pode salvá-lo. O protagonista já leu a bíblia, tem sua própria interpretação e faz questão de não adular o jovem pregador, dizendo que não gosta nem um pouco do significado do Sagrado Livro. No fim, Thomas nem era um missionário, era apenas um jovem que fugiu de casa e não sabia como seus pais reagiriam a um possível retorno. É exatamente a honestidade, não só de Charlie, mas, principalmente, de uma outra personagem que acaba com as suas dúvidas e o faz voltar para sua família.
Convenções literárias e sociais nos moldam, transformam seres humanos em robôs, presos a uma forma única de se expressar. Temos sentimentos, opiniões, personalidades, gostos e temperamentos distintos. São essas diferenças que fazem do mundo um lugar interessante e os seres humanos criaturas complexas. As coisas só devem ser realizadas se fazem sentido, caso contrário, qual a razão para seguir em frente?
Charlie nunca esconde a sua honestidade e é fascinante ver o seu amor pela filha, Ellie, que, para o espectador, soa como uma jovem desrespeitosa, rebelde e ignorante. Suas palavras saem meio atabalhoadas, mas são genuínas. Por mais dolorosas que algumas delas sejam, é melhor ser autêntico do que um andróide programado. A relação entre os dois é muitíssimo bem construída, pois, enquanto Charlie não para de elogiá-la, de dizer quão inteligente e maravilhosa ela é, Ellie diz que o despreza, é indelicada e fria. O protagonista sabe de onde veio aquele rancor e chegou a um ponto em que olhares de piedade doem bem mais do que palavras dilacerantes. Ela quer que ele realize um dever de casa importante para a sua aprovação na escola e tudo indicava que Charlie estava escrevendo um texto digno de uma nota dez. No entanto, somos pegos de surpresa quando ele apenas reproduz uma antiga redação de Ellie – sua favorita -, sobre Moby Dick – e daí vem o título. Os dois nunca deixam de ser honestos e o fato da filha realmente se emocionar e sorrir para o pai ao reler o texto é a maior prova de que, ainda que doa, a verdade sempre será o melhor caminho. Matthew Libatique, parceiro habitual de Aronofsky, inverte os tons, saindo do cinza que exalava dor e claustrofobia para uma luz tão radiante, que realça os cabelos ruivos de Ellie e faz Charlie levitar, finalmente livre e feliz.
Se “Under Pressure” foi a música ideal para o desfecho de “Aftersun”, o mesmo pode ser dito sobre a delicada e poderosa trilha orquestrada por Rob Simonsen.
A montagem conversa diretamente com a fotografia e a direção de arte. Nunca saímos do lugar e os cortes precisos fazem da casa do protagonista um espaço cada vez mais angustiante e pequeno. O flashback no final é belíssimo, reforça o pacífico e reconfortante fim de Charlie.
Há de se destacar também a presença de Mary, ex mulher do protagonista, que guarda as mágoas do passado em cada copo de vodka que bebe. Em um filme que, apesar de ter como ponto de partida a obesidade, dá maior ênfase ao ser humano que habita o corpo, não poderia faltar uma cena impactante entre os dois. Após discussões sobre o passado e a custódia de Ellie, Mary se aproxima de Charlie e sente sua respiração, enquanto ele relata o belo dia exposto no flashback final. Ela chora, por se lembrar daquele momento e por perceber que, ainda que falho, Charlie era um homem generoso e sensível que estava prestes a morrer. Empatia não faz mal a ninguém e o protagonista não havia cometido nenhum crime, só se apaixonou por outra pessoa.
A abordagem de Aronofsky vai ao encontro do material base – uma peça de teatro. Ele utiliza travellings para que o espectador tenha noção do quão caótica é aquela casa, movimenta sua câmera com fluidez e abusa de close ups, ressaltando o impacto das excelentes interpretações. A religião é um tema recorrente em seu trabalho. Em “The Whale”, ela está ligada à pregação, à dúvida, ao excesso, algo que destrói e que não é honesto nem aos olhos de um “missionário”.
Precisamos falar sobre Brendan Fraser. Afastado há um tempo dos grandes palcos, o ator retorna com uma performance sutil, devastadora e emocionante. A dificuldade que Charlie tem para realizar tarefas simples, como pegar uma chave no chão e se levantar, têm o devido impacto graças ao esforço corporal de Fraser. Nesse sentido, não posso deixar de elogiar o maravilhoso trabalho de maquiagem, que expõe a dura realidade do protagonista, sobretudo nas cenas em que ele surge desnudo. O mesmo pode ser dito sobre as cenas nas quais Charlie devora suas refeições. Uma merece um destaque em especial pela gama de sentimentos que ele transmite ao comer uma pizza. Estranhamos suas reações perante algumas atitudes ou frases e, ao longo da trama, entendemos exatamente o porquê delas. Seu doce olhar, sua voz fragilizada, sua risada engasgada, sua tristeza inerente e seu medo de decepcionar Ellie são marcas fortes de um ator que merece o Oscar.
“The Whale” é mais uma obra prima na excepcional carreira de Darren Aronofsky, um filme que trata de um tema delicado, mas não se limita a ele, provando ser uma reflexão sobre os seres humanos de modo geral.

