Skip to main content

Especial Efeitos

Larry Cohen faz filmes para pessoas que amam cinema. Sua carreira deveria ser homenageada em mostras e relançada em canais importantes, como a Criterion Collection. “Special Effects”(1984) é um dos vários projetos de Cohen que impressionam pela inventividade de seu conceito, mesmo remetendo a clássicos de Alfred Hitchcock. A metalinguagem é um artifício antigo, mas que, quando bem articulado, deixa uma boa impressão no espectador. 

O diretor Chris Neville foi recentemente demitido de seu próprio filme por exceder a verba com efeitos especiais. Nova Iorque é um dos palcos para atrizes aspirantes, jovens que, perdidas na vida, sonham em aparecer nas grandes telas. Andrea Wilcox é uma dessas jovens. Keefe, seu marido, quer reuni-la com seu filho e formar uma família, mas ela tem objetivos particulares, ambições que a impedem de abraçar certas responsabilidades. Neville a recebe em sua residência. A abundância de detalhes em vermelho e a extravagância geral dizem muito sobre ele, que funciona como uma sátira do diretor que se considera maior do que o mundo; o autor que não dirige apenas atores, mas suas vidas e destinos. Seu quarto é um estúdio, com direito à iluminação profissional e uma câmera escondida. O palco perfeito para o assassinato de Andrea. A polícia tem todos os motivos para suspeitar de Keefe, mas Neville propõe um acordo: caso Keefe participe de seu novo filme, ele pagará a fiança e contratará o melhor advogado possível. Neville não quer trabalhar com atores profissionais; seu novo projeto gira em torno de uma atriz aspirante que foi assassinada em circunstâncias misteriosas e o marido que queria convencê-la a aceitar uma vida simples e confortável. 

Mal visto na indústria, Neville costura o espaço para o seu retorno, com um material que chamará a atenção de todos. Ele dirigiu Andrea ao seu quarto e à sua morte. Diretores devem ser, em essência, duas coisas: estetas e bons contadores de histórias. Taxado como um artista vidrado em efeitos especiais, Neville quer provar que pode estruturar suas narrativas da forma mais real possível, sem truques cênicos. E o policial, o que acha disso? Contanto que seu nome esteja nos créditos, como produtor ou algo do tipo, está tudo certo. Hollywood tem o poder de massagear o ego das pessoas, seja lá qual for o seu cargo. Para o papel principal, Neville testa uma série de garotas, o que é ressaltado pelo plongée em que o vemos diante de milhares de fotos. Todavia, é por acaso que Keefe encontra Elaine, voluntária no Exército da Salvação, que é idêntica a Andrea. Cohen é muito preciso em seus comentários sobre a falta de limites na indústria cinematográfica. Neville precisa encontrar uma maneira de surpreender o espectador; uma morte que fuja das convenções. Então, enforca um de seus produtores com um rolo de filme. Em outro momento, Neville, ao perceber que Keefe está assistindo a gravação de uma cena “quente”, estende o plano até que ele invada o set e dê um soco no rosto do amante de Andrea. Cohen, em seu toque hitchcockiano, coloca Keefe diante de sua falecida esposa, trazendo à tona velhos sentimentos e um amor que ainda pulsa em suas veias.

A arte não imita a vida – a não ser que você seja um psicopata como Neville. O cinema, assim como outras expressões artísticas, vale-se da manipulação de seus artifícios e da capacidade de relacionar precisão estética e o lado emocional do espectador. Ou seja, estamos falando de algo que, por natureza, nasce da farsa, da encenação – tire da equação alguns tipos de documentários, como, por exemplo, os realizados por Frederick Wiseman. Nos últimos minutos, Cohen recorre à montagem paralela para estabelecer uma tensão maior, além de usar ângulo holandês. Esse é o cinema e a sua arte de manipular imagens e sequências. As ruas são frias, chegando a ser dominadas pela neve. Nos ambientes internos, principalmente a casa/estúdio de Neville, Cohen muda sua forma de filmar. Aquela noção mais crua, comum aos seus filmes, é deixada de lado, dando lugar a ângulos mais estilosos e ao enfoque de cores e objetos simbólicos. Na casa, o vermelho é intenso e os espelhos revelam uma dupla personalidade. Se você quer fazer um filme “realista”, encene com esse objetivo. Matar alguém para tal vai contra a noção básica do cinema: é tudo mentira. Neville é uma fraude que precisa ser exposta. Cohen é um grande irônico e seu desfecho não poderia ser diferente. 

Eric Bogosian consegue interpretar uma figura “satírica” sem que o deboche salte aos olhos do espectador. Neville tem camadas e Bogosian não vai atrás de soluções simples, valorizando seu personagem. Há também que se destacar Zoë Lund, que dá vida a duas mulheres distintas, identificando a alma de cada uma. 

“Special Effects” é uma pérola que precisa ser descoberta pelas massas.

O que você achou deste conteúdo?

Média da classificação / 5. Número de votos:

Nenhum voto até agora. Seja o primeiro a avaliar!