Foi Deus Quem Mandou
Os filmes de Larry Cohen sempre despertam algum tipo de excitação no espectador. Seus conceitos são muito originais. Em plena década de 70, Cohen decidiu não participar do “clube” da Nova Hollywood, fazendo um cinema de alto valor de encenação e toques de “filme B”. “God Told Me To”, como quase todas as suas obras, situa-se em Nova Iorque, a cidade que suscita o clima de paranoia e conspiração que ele tanto gosta. Logo no início, sua câmera, inquieta, circula pelo caos cotidiano. Os prédios são enormes, verdadeiros monumentos urbanos. Repentinamente, tiros são disparados do topo de um prédio. A carnificina, realçada pelos cortes, parece aleatória, até que Peter, um detetive, alcança o assassino e pergunta o que o motivou. “Deus mandou”, afirma ele, antes de cometer suicídio.
A onda de sanguinolência se instaura na cidade e a resposta é sempre a mesma. Não há conexão entre os assassinos, apenas a frase que se repete. Católico, Peter fica traumatizado com os acontecimentos, mas se coloca à disposição para investigá-los. Na igreja, ele se ajoelha no altar, como se buscasse um diálogo com Ele. Na rua, por sua vez, seu olhar diante da cruz de luzes vermelhas é de apreensão e desespero. Deus, em vez de aparecer em milagres e curas, organizou uma quadrilha? Em parte, este poderia ser um filme de Martin Scorsese, no qual seu protagonista luta contra sua formação religiosa e os demônios internos do passado para solucionar um crime – seria fantástico, por sinal. Até a forma como Cohen retrata Nova Iorque lembra aquilo que Scorsese fez em “Táxi Driver” (curiosamente, ambos os filmes são de 1976). Cohen traz à tona a sujeira, a fumaça, os letreiros em neon e o tumulto nas ruas de Manhattan. O departamento policial também é um lugar decadente e pouco convidativo, movido por figuras acomodadas e moralmente duvidosas. Cohen estabelece uma dinâmica interessante entre plongées e contra-plongées. Ele constrói um mundo em desequilíbrio. Não há uma definição de posicionamento, o que acaba sendo fundamental para a incerteza em torno dos crimes. Por que aquele que soa imponente, instantes depois, parece vulnerável?
A crueza, como mencionei acima, estende-se das ruas à sua câmera, preocupada em inserir o espectador num meio efervescente. As iconografias religiosas estão por todos os lados, obrigando-nos a reavaliar mitos e símbolos. O que é Deus? Por que ele está nos altares e na sala de estar das famílias? Ele é a verdade? O líder supremo? É a empatia e o afeto que existem dentro de nós? Qual a sua função? O vermelho é um outro símbolo importante – destaque para a sala de um homem poderoso -, salientando a violência que domina a narrativa. Essa violência fica ainda mais poderosa no texto de Cohen, que critica o fanatismo religioso que move seres despreparados para a vida real. Seres que, por obedecerem cegamente a um líder, sem qualquer pensamento crítico, tornam-se uma ameaça para a sociedade. Nesse sentido, o filme sempre será atual. O fanatismo não está somente em ações assombrosas; algumas frases “ingênuas” são tão perturbadoras quanto o disparo de uma arma.
Tudo bem, mas como o cineasta desvenda essa situação, no mínimo, enigmática? Qual o mistério por trás das mortes? Eu diria que da forma “mais Cohen” possível. Seus filmes são sopros de inventividade. Sem maiores spoilers, a trama entra em terrenos sobrenaturais que envolvem virgens que deram à luz a “seres especiais”. O arco de Peter, de certa forma, remete ao de Harry Angel, protagonista de “Coração Satânico”, dirigido por Alan Parker. Assim como o personagem vivido por Mickey Rourke, Peter, enquanto soluciona um crime bizarro, parte numa trajetória amaldiçoada de autoconhecimento. Deuses ou demônios? O que difere tais fanatismos? Não há pureza nos extremos.
Cohen gosta de dar espaço a atores pouco conhecidos e talentosos. Michael Moriarty talvez seja o grande exemplo disso. Aqui, Tony Lo Bianco oferece uma performance sóbria, que é elevada nos momentos certos. Seu olhar naquele plano exuberante – quem viu o filme sabe do que estou falando – é de uma potência impressionante. “God Told Me To” é uma das várias obras primas de um cineasta que, infelizmente, não recebe o devido reconhecimento.




