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SABU (2026)

Entre os filmes apresentados fora de competição nesta edição do Festival de Veneza, “Arrested Memory”, do japonês SABU, é um dos mais divertidos. O experiente cineasta demonstra um domínio formidável de uma combinação que costuma gerar bons frutos: ação e comédia (com alguns toques existencialistas). Logo no início, SABU deixa claro que tem muito estilo, elaborando uma sequência de luta em câmera lenta, em um ambiente de tons azuis e vermelhos. 

Na trama, um detetive passa a sofrer de uma amnésia que cresce após o fracasso de uma missão que resulta na morte de vários de seus colegas. Através da distorção da imagem e do som e, também, da câmera lenta, SABU nos insere na perspectiva desnorteada do protagonista. Ele não percebe de imediato que está com amnésia. Em uma cena que indica a gravidade de seu estado, o detetive chega em casa e descobre que já tinha tudo que havia acabado de comprar. Solitário e traumatizado, o protagonista é contratado para resolver o sequestro do filho de um magnata. O problema é que, aos poucos, ele esquece até mesmo de quem é. A partir daí, o humor é introduzido de forma situacional. Com uma mala cheia de dinheiro, rodando por Taipei, o detetive é uma caixa de surpresas, chegando a dar alguns milhões para uma jovem que estava prestes a cometer suicídio. A luz intensa, oriunda da lanterna de um ônibus, ressalta que aquela garota, de alguma forma, surgiu para transformar a vida do protagonista. No momento de maior comicidade, o detetive vira amigo de um dos sequestradores. Na casa, o humor parte das reações horrorizadas do magnata, que não entende o que o detetive está fazendo. Chega a um ponto em que nem mesmo os demais policiais são capazes de explicar o que está acontecendo. O roteiro é hábil ao armar encontros e desencontros que servem ao desenvolvimento pessoal do protagonista. Essa também é a história de um homem que, sufocado pela angustiante rotina policial, ressignifica a própria existência. 

As sequências de ação fascinam pela variedade, combinando luta corpo a corpo, tiroteios cujos disparos são potencializados por um assombroso trabalho de design de som e até judô. A amnésia do protagonista confere a ele uma certa imprevisibilidade. Por vezes, seu rosto, desnorteado, evoca uma imensa vulnerabilidade; todavia, segundos depois, ele já está comprovando todo o seu talento para o embate físico. Dentro do caos, SABU encontra um tipo de paz. Para o protagonista, não se lembrar de si é um ponto de liberdade – o problema é quando os flashes do passado pingam em sua mente. No clímax, o diretor eleva o escopo da ação, atinge o pico da comédia e consegue fazer com que tudo se encaixe, resolvendo o sequestro e proporcionando um futuro promissor para o protagonista. 

Ethan Juan está muito bem no papel principal, incorporando a dualidade que torna o detetive tão imprevisível. Há um vácuo em sua expressão facial. O outro destaque do elenco é o ótimo Shinichi Tsutsumi, que interpreta o magnata. Sua voz é naturalmente imponente e suas reações, como mencionei acima, são impagáveis. 

“Arrested Memory” é o tipo de filme que alegra um festival dessa magnitude. O bom cinema de gênero sempre merece espaço e respeito.

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