O Chefão de Nova York
Larry Cohen estreou em 1972, com “Bone”, filme que já deixava claro o seu caráter subversor. Cohen reinterpreta a posição do homem negro na sociedade e nas narrativas cinematográficas. Isso fica ainda mais evidente em “Black Caesar” (1973), que entra na seara do Blaxploitation. No ano anterior, Francis Ford Coppola, um dos padrinhos da Nova Hollywood, realizou “O Poderoso Chefão”, uma das obras definitivas do movimento e sobre a máfia. Cohen, que nunca fez parte do “clube”, foi na contramão.
Seu filme começa com um plano geral de Nova Iorque, em que vemos os famosos arranha-céus. Ele roda seus filmes nas ruas, em um estilo de guerrilha, captando um espírito urbano de alta crueza e visceralidade. O racismo é exposto de imediato, sendo a força motriz para Tommy Gibbs, que cresceu nas ruas do Harlem, querer ser o rei do pedaço. Saltamos de 1953 para 1965. Pouca coisa mudou. Os negros ainda não podem entrar em certos lugares e são mal vistos pela máfia italiana, que não lhes concede espaço em nenhum tipo de serviço. Cohen narra a ascensão de Tommy, que constrói uma gangue capaz de tomar o território dos sicilianos. Ele rouba o livro de registros com todas as negociações ilícitas de seus rivais, o que o coloca numa posição importante, quase intocável. Todavia, Cohen não pensa num filme de empoderamento racial. “Black Caesar” é, na verdade, sobre o apodrecimento de um sistema que domina aqueles que chegam ao seu topo. Tommy não age em prol da comunidade; suas ações são individualistas, visando a ostentação do poder. Em um momento definitivo, após ser rejeitado por Helen, sua namorada, o protagonista a estupra, deixando claro que, em sua cabeça, pode fazer o que bem entender. A imagem de Tommy bem-vestido, fumando um charuto, com os pés em cima da mesa é autoexplicativa. A trilha sonora cumpre um papel essencial na narrativa, pontuando as investidas do protagonista e de seu grupo. A cena em que os negros invadem a casa de um chefão italiano só é poderosa graças à transição na trilha sonora: o tema siciliano é, aos poucos, tomado pelo soul, ressaltando a mudança no trono do Harlem.
O roteiro não é tão incisivo e detalhado na concepção daquele universo, mas Cohen compensa eventuais problemas com a força de suas imagens. A começar pelo calor que as ruas transmitem, como uma selva urbana, guiada pela ganância sanguinolenta. Tommy está sempre suado, num reflexo de seus esforços para atingir o topo da pirâmide. Diferentemente da maioria dos cineastas, Cohen não está interessado nos prazeres e no luxo do gangsterismo, indo direto para a derrocada daquele que não mediu o tamanho de seus passos. Ainda que perceba os equívocos que cometeu, Tommy não tem escapatória; todos que chegam em sua posição precisam cair. Cohen filma as ruas, seus movimentos ininterruptos e é preciso ao encenar a violência com tamanha brutalidade. Não são apenas os disparos e o sangue que impressionam, mas, principalmente, a forma como a câmera se comporta diante de tais atos. Cohen guia o espectador pelos meandros do crime e da dor, emulando o atordoamento de Tommy após tomar um tiro à queima roupa e elaborando uma ambiciosa sequência de perseguição, envolvendo um táxi na calçada. A câmera inquieta é um símbolo das incertezas da vida mafiosa, assim como o vermelho, presente em diferentes ambientes. Quando Tommy finalmente enfrenta McKinney, seu carrasco do passado e atual rival, sentimos as feridas do preconceito em cada golpe. O desfecho vai ao encontro do que eu mencionei acima: esse é um filme sobre a autodestruição envolvendo um estilo de vida, não um manifesto étnico. Tommy não é defensor de causa alguma.
Fred Williamson oferece uma performance calcada em seu carisma e imposição física. D’Urville Martin, que interpreta seu irmão, um pastor local, também está excelente. “Black Caesar” é a prova de que, desde o início de sua carreira, Larry Cohen demonstrava um talento acima da média.




