“Phantom of The Paradise” é a prova de que Brian De Palma sempre foi um diretor ambicioso. Poucos filmes reúnem tantas influências de uma maneira tão escrachada e essencial.
Swan, um icônico e misterioso produtor musical, está prestes a inaugurar uma casa de eventos chamada “Paraíso”. Pensando numa ocasião especial, ele organiza várias audições, com o intuito de encontrar um som que molde a geração. Eis que surge Winslow Leach, um jovem compositor que, na contramão das tendências, apresenta uma cantata baseada na história de Fausto, um mágico alemão que vendeu a alma para o diabo. Swan percebe o talento de Winslow; todavia, não pretende utilizá-lo, então arquiteta um plano para roubar a partitura e eliminar o pobre coitado.
O roteiro, escrito pelo próprio De Palma, expõe o lado sujo e inescrupuloso da indústria musical, que não mede esforços para alcançar aquilo que deseja e que prioriza a imagem em detrimento da qualidade. Em sua busca por provar sua inocência, Winslow é literalmente esmagado pelo sistema, sofrendo uma grave deformação no rosto, transformando-se no fantasma que vive para assombrar o “Paraíso”. Nas sequências em que o protagonista é humilhado e tenta fugir, De Palma adota uma abordagem de slapstick comedy, a partir da aceleração da imagem e do exagero de movimentos corporais. O uso de cartelas e capas de revista também remetem ao cinema mudo, potencializando o tom lúdico e a agilidade da narrativa. Outro elemento característico deste período e que aparece na montagem é a opção por fechar o quadro em formato de círculo, até o fade out. O cineasta, por vezes, evidencia a desvantagem de Winslow através de contra-plongées que conferem imponência a prédios e a inimigos. Da mesma forma que demora a revelar a aparência de Swan, De Palma não mostra o fantasma de imediato, optando, primeiro, por um plano subjetivo – o confronto de criaturas quase míticas.
A principal influência de De Palma, no entanto, é o gênero gótico expressionista, conhecido por seu exagero estético. Swan surge de uma porta esfumaçada, com um intenso tom de vermelho, em um cenário um tanto opressivo – assim, seu caráter nebuloso e antagonismo são destacados. O fantasma divide inúmeras semelhanças com personagens expressionistas e góticos, como, por exemplo, o Fantasma da Ópera (quem diria…). Além de recluso e trágico, ele esconde sua deformação com uma máscara, vive nos confins de um prédio com fins artísticos e é apaixonado por uma mulher que tem o talento para interpretar suas composições e que é alvo de seus nêmesis. As influências não param por aí, já que a casa de Swan é uma espécie de castelo soturno e o Paraíso é repleto de entradas secretas, elementos típicos do cinema gótico. A grafia do contrato entregue por Swan ao fantasma não faz jus à época em que o filme foi lançado, mas a séculos passados. E, claro, “Fausto”, escrito por Goethe, foi adaptado para o cinema por F. W. Murnau, mestre expressionista. As escolhas de De Palma não são caprichos; tudo está alinhado com a história que está sendo contada, que é uma espécie de versão moderna das obras citadas acima. O mais fascinante é que o diretor consegue amarrar tais características com tendências da década de 70, com ênfase para o Glam Rock. A verdade é que, nesse caso, passado e presente são unidos por um cordão umbilical; afinal, o Glam dialoga com a estética gótica e com a teatralidade assumida por De Palma – a sinergia perfeita entre “O Gabinete do Dr. Caligari” e Alice Cooper. Vale ressaltar que De Palma não abandona suas marcas registradas. Em determinado momento, ele usa Split Screen para que o espectador acompanhe ação e reação. No clímax, a estilização caminha em direção ao caos e à crueza, capturando a violência com a urgência que fez a cabeça dos artistas da Nova Hollywood, fechando um comentário sobre a fomentação de uma audiência bitolada e alheia à realidade.
William Finley e Paul Williams oferecem performances magistrais dentro do contexto pensado por De Palma. “Phantom of The Paradise” foi a primeira grande jóia de um mestre e merece o status cult.



