Eu estou com saudades de Whit Stillman. Aparentemente, ele está trabalhando em um novo projeto, após um hiato de dez anos. Sua carreira é muito curta para o tamanho de seu talento. Sua estreia, “Metropolitan” (1990), continua sendo uma das mais ambiciosas e autorais que já assisti. Stillman decidiu começar com um filme sobre pessoas que irritam por seu esnobismo e alcançou um certo tipo de magia.
“Metropolitan” é uma sátira focada num grupo de jovens burgueses que discutem e se expressam através de um código pseudo intelectual. Sim, há momentos em que as risadas advêm do modus operandi dos personagens, mas Stillman foge da armadilha de ridicularizar sua criação. Tudo é muito sutil. Aquelas não são más pessoas, apenas jovens presos a uma irrealidade. A comunhão entre crítica social, envolvimento emocional e comédia é o que torna o trabalho de Stillman tão sofisticado. Ao longo de diferentes períodos, acompanhamos esse grupo de amigos em bailes de debutantes e conversas profundas. “Você é fourierista?”, Charlie pergunta a Tom, novo membro do grupo. Eles estão sempre bem-vestidos: os rapazes com sobretudos, ternos e gravatas; e as moças com vestidos e colares de pérola. Os diálogos giram em torno de críticas à aristocracia, correntes filosóficas, literatura e “mobilidade social”. Eu não conheço um grupo de pessoas que use tanto a palavra “idiossincrasia” (só para citar um exemplo). A formalidade do vocabulário se estende aos figurinos e à disposição deles nos apartamentos. Entre as conversas, Stillman abre o quadro, expondo um padrão: sempre em círculo, próximos um do outro. O cineasta, por vezes, deixa Fred ao fundo, dormindo, enquanto os outros travam debates intelectuais – uma gag que capta a sutileza da direção do estreante.
Em determinado momento, Tom diz não ler romances, apenas críticas literárias; assim, tem acesso ao conteúdo da obra e a uma opinião embasada. Esses são os personagens de “Metropolitan”. Eles conhecem os termos, têm noção de certas ideias e pensamentos, mas são desprovidos de originalidade. Por que jogar bridge? Trata-se de um clichê da burguesia, embora Nick o considere insuportável. Audrey é uma romântica incontornável. O problema é que ela se considera uma personagem de Jane Austen. Todos se levam muito a sério, imersos numa bolha que não tem nada a ver com a vida real. O único que parece tirar algum sarro da situação, apesar de ser o mais envolvido, é Nick, o mais vulgar do grupo. Ao andar por Manhattan com uma bengala, luvas brancas e uma cartola, ele admite que veste uma máscara. Cercados por quadros, belos papéis de parede e lareiras, em apartamentos na Park Avenue, esses jovens estão adiando o inevitável. Assim que a bolha explodir, eles se verão desarmados, despreparados para o verdadeiro cotidiano. Nos momentos privados para garotas, elas se vestem como donas de casa, adultas que construíram uma família. O teatro de costumes está bem ensaiado, mas o que há por debaixo da fantasia? O que essas pessoas farão sem bailes de debutantes? A única verdade ali envolve implicâncias juvenis. Charlie não gosta de Tom por ser seu rival no “embate” pelo coração de Audrey. Existe embate? Eu só vejo seres tapados, incapazes de expor sentimentos individuais e profundos. Seria melhor e mais honesto se eles fizessem uma orgia. Pelo menos, passariam a sentir algo real – talvez desconforto; talvez tesão; ou talvez repulsa.
Por maiores que sejam as minhas restrições ao grupo, não posso negar que há, sim, um charme naquela tradição burguesa. A fotografia investe numa luz suave e numa imagem de grãos intensos, ressaltando o caráter “clássico” dos personagens. O mesmo vale para a trilha sonora, que não poderia ser mais nova iorquina. Os fades funcionam como uma rima para a passagem temporal. Em meio ao carnaval farsesco, existe uma preocupação com a formação de uma geração alienada e perdida. Stillman fecha a narrativa sem convicções, deixando os personagens cientes de que os bailes acabaram e que, a partir de agora, uma nova fase se iniciará. A estrutura de “hangout movie”, fugindo de uma trama, é perfeita ao retratar um grupo sem reais ambições, que “flutua” por aí, fincado a algo que, na verdade, inexiste. “Tome cuidado, ele é um fourierista” – quem pensaria em uma fala assim?
O elenco é esplêndido, funcionando como uma engrenagem muito sólida. Chris Eigeman, ator assinatura de Stillman, que considero extremamente subestimado, é quem se sobressai. A mistura de timing cômico, uma seriedade ardilosa e comprometimento com o charme burguês funciona muito bem.
“Metropolitan” é uma das grandes joias da década de 90.




