Loucuras de Verão
Antes de se tornar uma das figuras mais bem sucedidas em Hollywood, graças a “Star Wars”, George Lucas dirigiu uma pérola chamada “American Graffiti”, que pode ser considerada o pai dos “hangout movies”. É bacana ver Lucas, tão reconhecido por seu trabalho na ficção científica e na fantasia, em um projeto “pequeno” e essencialmente urbano.
Durante uma noite, acompanhamos as andanças de um grupo de jovens. O roteiro, escrito a seis mãos – o próprio Lucas, Willard Huyck e Gloria Katz –, acerta ao apresentar os personagens e depois dividi-los em núcleos. A montagem salta entre as diferentes aventuras noturnas com muita fluidez, formando um painel daquela juventude. Steve, vivido por Ron Howard (isso mesmo), viajará para a universidade no dia seguinte. Em vez de se declarar para Laurie, sua namorada, e fortalecer o laço, ele propõe um relacionamento aberto (leia-se, não quer perder a oportunidade de se divertir com as colegas universitárias). Laurie, genuinamente apaixonada, fica arrasada. A noite dos dois gira em torno de discussões, alguns afagos e a percepção de que certas coisas são valiosas demais para se abandonar. Steve é frio, ainda imaturo em relação aos seus sentimentos. Em um momento, ele parece um rapaz bacana; minutos depois, é capaz de chantagear Laurie emocionalmente só para conseguir transar. Curt também está de mudança; todavia, diferentemente de Steve, não tem certeza se quer ir para a universidade. Sua noite é sobre abraçar as incertezas da vida, dando chance ao amadurecimento – e, claro, sobre encontrar a loira sensual que acenou para ele no sinal.
Terry, o nerd do grupo, traz à tona algo muito importante no contexto em que o filme se passa: um belo carro te coloca em outro patamar. Os carros estão por todos os cantos, funcionando como veículos para paquera, discussões e corridas. Ao conseguir a máquina de Steve emprestada, Terry não titubeia. Ele é uma espécie de proto-McLovin (Superbad), tanto pela semelhança física quanto pela jornada repleta de surpresas. Ainda temos John, o encrenqueiro da turma, famoso por participar de rachas. À procura de um par para a noite, ele acaba se metendo numa furada, tendo que ficar com Carol, uma pré-adolescente de personalidade forte. O contraste de personalidades faz deste o núcleo mais agradável de se acompanhar. Outro ponto interessante do roteiro é que, por mais intensa que a noite seja, nunca ficamos com a sensação de que algo ali não é crível. “American Graffiti” diverte sem tirar os pés do chão, contando com uma camada melancólica – as despedidas e as eventuais reviravoltas que a vida proporciona.
As escolhas musicais nos transportam para a década de 60 e conferem um frescor maior à narrativa. A imagem do drive-in, ponto de encontro dos jovens, é um poço de nostalgia, funcionando como cartão postal de uma década e de uma geração. Lucas é um cineasta funcional. Não há nada a reclamar sobre sua direção, a não ser a falta de uma intimidade maior com a câmera – esse filme, nas mãos de um de seus amigos de Nova Hollywood, seria uma obra prima definitiva. O elenco conta com os talentos de Richard Dreyfuss, Paul Le Mat e Charles Martin Smith. Vale destacar a participação especial de Harrison Ford, que interpreta um caubói que dirige carros e gosta de provocar John.
“American Graffiti” cravou o seu nome na história do cinema. É uma delícia de filme, talvez ofuscado pelo status que Lucas alcançou em 1977, após “Star Wars”.




