Febre de Juventude
Muito antes dos sucessos da trilogia “De Volta Para o Futuro”, “Forrest Gump”, “Contato” e “O Náufrago”, Robert Zemeckis, em 1978, lançou um filme que deveria ser reverenciado. “I Wanna Hold Your Hand”, sua estreia, é uma carta de amor a um período muito especial.
Os Beatles, em 1964, chegaram aos Estados Unidos. Era o auge da chamada “beatlemania”. Zemeckis não está interessado em dissecar a banda ou em esgotar o tema. Nada disso. Seu filme gira em torno de um grupo de amigos que, durante um dia, no qual os Beatles se apresentaram no Ed Sullivan Show, tentam conhecer seus ídolos e conseguir ingressos para o evento.
Nesse sentido, “I Wanna Hold Your Hand” funciona muito bem na lógica de um “hangout movie”. O charme da narrativa está em observar tais personagens em suas andanças, tentativas e trapalhadas. Zemeckis incorpora a ideia do espectador se sentir parte daquele grupo, fugindo de uma trama definida. Ao todo, temos sete personagens, o que poderia ser um problema caso o roteiro não fosse tão esperto e ágil. Zemeckis apresenta o grupo, estabelece os principais laços e determina a personalidade de cada um. Depois, de maneira orgânica, ele forma núcleos, dando à narrativa um frescor que contempla o frenesi da “beatlemania”. Não há uma história “menor”, todas são respeitadas e culminam num clímax apoteótico. Pam, a mais tímida, está prestes a se casar e, apesar de amar a banda, não sabe se deve partir rumo ao tumulto. Não deixa de ser irônico o fato dela ser a única que tem um “gostinho” a mais. Ao se aproximar do baixo de Paul McCartney, Pam tira a aliança e Zemeckis fomenta uma intimidade a partir de um plano-detalhe – como se aquilo fosse uma relação sexual. Janis é contra a banda, afirmando se tratar de um produto que abafa verdadeiros artistas, como Joan Baez e Bob Dylan. Ela é o contraponto. Ao seu lado, está Tony, que inveja os Beatles pelo sucesso que fazem com as garotas. Ele está interessado em Janis e quer criar discórdia.
Larry, filho de um funcionário de funerária, é o atalho para chegar perto dos astros. Ele é o pobre coitado pelo qual temos uma enorme simpatia, que está lá para convidar a garota que gosta para o baile. Esta é Grace, a mais ambiciosa do bando, cujo intuito é lucrar com fotos da banda. O contraste entre os dois e as loucuras que Larry comete por Grace fazem deste o núcleo mais charmoso. Ainda temos Rosie e Richard, os nerds absolutos, capazes de qualquer coisa para chegar ao objetivo final. A montagem salta de personagem em personagem, criando um mosaico cômico sobre “fanatismo” e a juventude daquele período. Os policiais correm por todos os lados, tropeçando e advertindo curiosos. Muito acontece no hotel, mas o cenário principal é a rua, que sustenta a constante movimentação dos personagens. Em cada núcleo, há um obstáculo evidente, fundamental para o interesse contínuo do espectador e para dar peso ao desfecho. Eles chegam ao Ed Sullivan Show, porque existe uma força interior dentro daqueles que idolatram a maior banda de todos os tempos.
Zemeckis dá espaço ao frenesi e aos gritos, destacando o amontoado de fãs. No show, isso fica ainda maior, graças aos cortes que dimensionam a multidão e emulam a euforia geral. O diretor, sabendo que não teria os verdadeiros Beatles à sua disposição e que isso traria danos ao filme, esconde os astros. Escutamos as vozes e vemos apenas os pés, registrados em ângulos baixos. Tudo bem, é uma tática inteligente, que também serve para a elaboração de uma imagem mítica e “intocável” dos músicos. Dito isso, o que fazer no clímax, quando os quatro sobem ao palco? Zemeckis enfatiza as câmeras e os projetores que mostram a performance real no Ed Sullivan Show. A banda é enquadrada à distância ou “incompleta”, em planos fechados e com elementos cênicos formando barreiras. Essa é a grande sacada de Zemeckis, que mantém a ilusão como um mestre experiente, não como um estreante. Falando em “ilusão”, vale ressaltar o excelente trabalho de direção de arte na reconstituição de época. O estúdio do Ed Sullivan é um convite à década de 60. O elenco é formado por jovens talentosos. Nenhum alcançou uma grande fama depois – Nancy Allen foi quem chegou mais perto.
“I Wanna Hold Your Hand” é uma delícia do início ao fim. Um filme que acerta em cheio em suas doses de ingenuidade e nostalgia.




