Marianne e Jean-Paul passam férias em uma casa exuberante, perto de St. Tropez e acabam sendo surpreendidos pela presença de Harry, um antigo amigo do casal, e sua filha de dezoito anos, Penelope.
A imagem dos corpos de Alain Delon e Romy Schneider à beira de uma piscina ensolarada é o que podemos chamar de perfeição humana. Nesse sentido, o trabalho de casting é brilhante, trazendo à tela atores de uma beleza inigualável, talentosos o suficiente para exporem a contradição trabalhada pelo roteiro. Se na superfície, “La Piscine” é um filme elegante e hipnotizante, no fundo, é extremamente pessimista em relação aos seres humanos. Objetivamente, o que vemos é irretocável, no entanto, o interior dessa perfeição estética não poderia ser mais podre. Os corpos, em algum momento, se deterioram e perdem a aparência escultural, o caráter das pessoas é mais difícil de mudar – não depende do tempo, mas de uma vontade própria.
Marianne, Jean-Paul e Harry agem como grandes amigos, contudo, aos poucos, notamos que a manutenção de uma imagem é priorizada em relação à exposição de verdades veladas. Nenhuma relação escapa de crises e os personagens acreditam que se blindar de certos sentimentos é a saída apropriada, quando, na verdade, apenas aflora suas imperfeições.
Marianne e Harry já foram amantes e Jean-Paul está sempre de olho em possíveis investidas do amigo. Repleto de frases prontas e comportamentos mecanizados, “La Piscine” se torna interessante justamente pela intensidade dos olhares – natureza voyeurística.
Jean-Paul abandonou a carreira literária e não parece muito satisfeito trabalhando com publicidade. Harry é um músico de sucesso, um sujeito extravagante e egocêntrico que adora fazer o papel do “cordial”, escondendo suas reais intenções. Seu carro diz muito sobre sua personalidade. Harry supostamente apoia o protagonista, mas, no fundo, gosta de vê-lo passando por dificuldades; se sente superior e alimenta sua tese de que o dono da casa é um fracassado. Amigos? A superfície x O interior…
Jean-Paul, percebendo a intenção de Harry e sua demasiada intimidade com Marianne, decide entrar no jogo. Penelope é ingênua e atraente, uma figura angelical, negligenciada pelo pai, que sumiu e voltou como se nada tivesse acontecido. Ele se sente na obrigação de reagir, afinal, ninguém pode entrar em sua casa e fazer literalmente o que quer. Tocar em sua filha é a forma mais baixa e poderosa de feri-lo e Jean-Paul a seduz tranquilamente, sem deixar claro para os demais, apenas sugerindo o óbvio.
O confronto central é masculino: de um lado, um homem que invade um espaço, a ponto de servir café da manhã para a esposa pelada do amigo na cama e dançar sensualmente com ela; do outro, o sujeito que sente o golpe e decide contra-atacar. Nada disso é dito, nem mesmo quando os personagens estão sozinhos. Talvez o espectador não perceba a crescente tensão, mas aqueles dois se conhecem demais, reconhecem passos insinuantes e olhares condenatórios. No terceiro ato, após o jogo se tornar insustentável, as emoções escondidas dos personagens são traduzidas em agressão física. Não direi o que acontece, apenas que a piscina, considerada por Jean-Paul a melhor parte da casa, é o palco para a cena de um intenso crime.
Marianne é uma mulher irritantemente passiva e condescendente. Para que sua expressão mude ou que alguém a tire do sério, algo inimaginável precisa ser feito. Essa máscara é mantida até o momento em que ela precisa se expor e tomar atitudes. A casa isolada da civilização é uma maneira de manter a perfeição intacta. Discussões e brigas não existem quando corpos e rostos perfeitos se encontram. O desfecho conversa com tudo o que assistimos. Por mais compreensível que a decisão do casal seja, não podemos mentir: quanto mais conhecemos uma pessoa, menos a superfície interessa.
Romy Schneider e Alain Delon não estão tão belos no último plano e os corpos, antes livres e esbeltos, aparecem cobertos por camadas de roupas e os olhos, por óculos escuros.
O espaço vai ao encontro do arco dos personagens. A fotografia ensolarada e a natureza dominam a tela que, gradativamente, é atraída por tons escuros e se concentra mais no interior da casa.
Os figurinos seguem um padrão similar. Se na primeira cena o casal está praticamente nu, no fim, ternos e suéteres de cores frias são frequentemente vistos. Jean-Paul se cobre por vergonha?
Tem algo a esconder? As imperfeições passaram à frente de sua notável perfeição.
A direção de arte se volta bastante para o verde e o amarelo – verão – e a arquitetura da casa, repleta de ambientes amplos e janelas abertas, remete, instantaneamente, à liberdade. No último jantar entre os quatro, a cor principal é o vermelho – indicativo do que estava prestes a acontecer e dos sentimentos destrutivos que retinham.
O diretor Jacques Deray consegue, através de close ups, extrair uma gama de emoções impressionantes: insegurança, medo, raiva, inveja e ódio. Sua câmera segue os personagens, é o coração e a mente de cada um deles. Com os mesmos recursos, Deray nos leva a crer que Marianne duvida se conhece Jean-Paul verdadeiramente. Seus travellings geram uma elegante e sugestiva tensão. Todavia, o seu grande mérito é, sem dúvida alguma, a forma como posiciona os personagens no quadro. Um detalhe que possivelmente passará despercebido e que faz toda a diferença. No já citado jantar – que acontece logo após o protagonista e Penelope terem transado -, os homens se sentam ao lado de seus pares e de frente para quem desejam, ou seja, ficam em posições opostas.
No início, Deray usa uma espécie de grade para enfatizar uma cena quente entre Marianne e Jean-Paul – presos a uma existência vazia, carnal e imaginária.
Ele volta a utilizar barreiras, agora para distanciá-los, sendo uma delas, a própria Penelope. No fim, os dois estão agarrados como no início, mas percebam, o verão acabou.
A trilha sonora é sofisticada e instigante; prazerosa e atmosférica.
Rodeado de interpretações fascinantes, calcadas na expressividade do olhar, de gestos e na dura manutenção de uma imagem – Alain Delon é facilmente o grande destaque -, “La Piscine” é espetacular. Um estudo sincero e duro sobre o ser humano e a força de suas imperfeições.

