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Ao longo de sua carreira, Steven Spielberg demonstrou um enorme fascínio por alienígenas. Em filmes como “Contatos Imediatos do Terceiro Grau”, “E.T.” e o recente “Disclosure Day”, sua visão acerca dos visitantes é otimista e reconfortante. Spielberg fala sobre empatia, a necessidade de olhar para as diferenças e de aprender com o “outro”. Em “Guerra dos Mundos”, baseado no romance de H.G. Wells, o cineasta oferece uma outra perspectiva, bastante impactada pelos atentados às torres gêmeas. 

Em determinado momento, a filha do protagonista pergunta se os terroristas estão atacando. O clima de medo e abatimento é refletido numa fotografia que cobre a cidade de luzes brancas e tons frios, mergulhando os personagens em sombras angustiantes. O que fazer contra um inimigo desconhecido e, potencialmente, invencível? Spielberg, nas sequências de extermínio e correria, capta o pavor em seu nível mais visceral. Os seres humanos retornam ao instinto animal, lutando por sobrevivência. Primeiro, o senso de urgência e individualismo prevalece; no entanto, na medida em que a capacidade empática é restabelecida, as pessoas passam a se ajudar. Em escopo, este é um dos filmes mais ambiciosos e impressionantes de Spielberg. No fim, há um plano em que o protagonista, vivido por Tom Cruise, observa um horizonte avermelhado. A imagem é belíssima, mas também tem tamanho dramático; afinal, antes disso, observamos uma verdadeira chacina, com direito a sequências que se passam no oceano, em ambientes apertados, em centros urbanos e em carros. A fuga constante traz uma estrutura digna de Road Movie, conferindo fluidez à narrativa. A câmera é um catalisador de tensão, acompanhando a energia de Cruise e circulando pelos espaços com enorme elegância. Ela pode ficar mais nervosa ou “apenas” focar numa interação familiar – o nível de apreensão não diminui. A trilha sonora, do lendário John Williams, é perspicaz, trabalhando as nuances da ansiedade sem se tornar intrusiva. O design de som é fascinante justamente por entender que o silêncio também é um indicador de tensão. 

Na trama, os trípodes, monstros monumentais que disparam laser, emergem do chão, iniciando uma matança global. No início, o narrador fala sobre “seres mais inteligentes”, no caso, os alienígenas, que tinham tudo planejado há tempos, provando ser a verdadeira “espécie superior”. O conceito é assustador para qualquer ser humano, acostumado a dominar o mundo e a ver seus pares fincando bandeiras na lua. Sim, “Guerra dos Mundos” é uma obra prima do medo, do trauma e da ação; todavia, tem, em seu centro, subtextos belos e “menores”. Este é, na verdade, um filme sobre um pai se reconciliando consigo e com sua família. É o filme em que Spielberg transformou o pai ausente (figura comum em sua filmografia) num herói. Ray é um estivador divorciado que mal vê os filhos. Em um fim de semana aparentemente comum, ele fica responsável por cuidar de Rachel e Robbie. Antes do caos, temos a oportunidade de perceber a desconexão entre os três e o absoluto desleixo de Ray, que é incapaz de preparar qualquer surpresa. Não há maldade; podemos afirmar que ele tenta ser gentil, mas que, ao se isolar no seu mundo de mediocridade, perdeu o contato com a realidade. Para os filhos, chamá-lo de pai não é natural. 

Eis que, para reatar laços, surge a maior ameaça que já pisou na terra. Ray, repentinamente, precisará ser aquilo que jamais foi. As interações são orgânicas, progredindo de acordo com a situação. O protagonista precisa lidar com seu destemperamento para garantir que a pequena Rachel se sinta segura. O grande mérito do filme é fazer com que o espectador, ao longo da árdua trajetória dos personagens, passe a identificar uma família que se ama. Tom Cruise combina muito bem suas habilidades dramáticas com as de astro de ação. Ray lida com uma série de emoções, mas deve contê-las – o rosto de Cruise é uma fortaleza de expressões complexas. O caos precede a harmonia? Precisamos de um baque monumental para perceber que nos enfiamos num buraco? Ao subir dos créditos, ficamos com a certeza de que Ray, a partir de agora, será um pai e um ex-marido melhor. 

Cruise e Spielberg deveriam ter colaborado mais vezes. Ambos têm uma vitalidade que combina perfeitamente.

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