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“Close Encounters of The Third Kind”, realizado após o estrondoso sucesso de “Tubarão”, é o projeto que representa a maturidade de Steven Spielberg enquanto autor. Aqui, ele se coloca como um cineasta do espetáculo, capaz de atrair pessoas de diferentes idades para os cinemas. De um ponto de vista formal e narrativo, o filme é (quase) irrepreensível. A apresentação da presença alienígena é primorosa, captando, ao mesmo tempo, o fascínio e o medo que os humanos sentem do desconhecido. Somos guiados por uma criança, um ser, por natureza, curioso. 

Assim como em “E.T.”, Spielberg traz o extraordinário ao subúrbio americano, onde nada acontece e todos parecem iguais. Depois da criança, Roy Neary assume o papel de “guia”. A sequência da primeira aparição da nave prova que Spielberg e o diretor de fotografia Vilmos Zsigmond se entendiam muitíssimo bem. Primeiro, ela surge atrás do carro de Roy, como um elemento que desperta inquietude; depois, coloca-se acima do protagonista, emanando uma fonte de luz imensurável. Assim, sem que palavras sejam ditas, somos enfeitiçados pelo poder que paira sobre a pacatez diária. Há um jogo de contrastes muito interessante, inerente à fotografia e ao design de som. Os alienígenas, com sua magnitude, forçam um blecaute na pequena cidade de Indiana. A escuridão também é enervante e não deixa de evidenciar o vazio que cerca aquelas pessoas. Da mesma forma, os estrondos da nave, orquestrados pelo gênio John Williams, com destaque para o clímax, dialogam perfeitamente com os silêncios que constroem uma atmosfera tensa. Um grupo de pessoas se junta em busca dos visitantes especiais, mas, rapidamente, essa se torna a missão de um homem só. 

Desde o início, Spielberg caracteriza Roy como um pai amável, porém disperso, preso às suas bugigangas e maquetes. Quando o protagonista vislumbra a possibilidade de estar diante de extraterrestres, sua vida parece, repentinamente, encher-se de significado e esperança. O olhar maravilhado da criança, na janela de casa, é idêntico ao de um pai de família. Ao longo de sua carreira, por ter brigado com o próprio pai, Spielberg apresentou uma série de figuras paternas distantes – isso não é uma novidade. A diferença é que, em “Close Encounters”, ele é o protagonista, o personagem que, por mais falho que seja, temos que nutrir alguma empatia. “Não consigo expressar o que estou sentindo e pensando”, diz Roy à esposa. Seu arco é rumo à insanidade, não à libertação. Sua noção, enquanto marido e pai, fica completamente turva. A busca pelos alienígenas, ainda que não represente nada palpável para sua vida, torna-se o seu bem maior. Em um jantar, Spielberg usa o Split Diopter como uma ferramenta de separação familiar, evidenciando o medo que o filho sente ao ver seu pai fora de si. Ronnie, sua esposa, passa a ser negligenciada e decide levar as crianças para a casa de sua mãe. Sem problemas, Roy precisa de tempo e espaço para transformar a casa num caos completo, construindo uma réplica da montanha que aparece em suas visões – supostamente, o lugar em que os alienígenas se encontrarão com os cientistas. Sem falar na relação amorosa que ele estabelece com Jillian, mãe do garoto que é abduzido pelos visitantes. Essa sequência é a que melhor destaca a versatilidade de Spielberg, que concebe um tom crescente de pavor, em que a casa, intoxicada pelo vermelho e pelo azul da nave, fica cada vez “menor”, o que é pontuado por planos-detalhe. Ali, sentimos na pele o medo de uma mãe que faz o possível para proteger seu filho. 

Voltando a Roy, sua resposta a Lacombe, o cientista interpretado pelo lendário François Truffaut, sobre o porquê daquele esforço todo para estar ali é, no mínimo, reveladora: “Só queria ter certeza de que está mesmo acontecendo”. Estamos falando de um homem que negligencia sua família, perde o emprego, abraça a loucura e trai a esposa para “tirar uma dúvida”. Spielberg não problematiza tal comportamento; pelo contrário, enxerga com certo romantismo o sujeito que explora o extraordinário. Eu não consigo sentir nada além de raiva de uma figura tão egoísta e abestalhada – isso, sem dúvida, atrapalha a minha experiência. 

Mas eu não vou terminar a crítica numa nota menor; afinal, embora reprove a conduta do protagonista, o filme, como mencionei acima, é excelente. O clímax está entre as melhores coisas que Spielberg já filmou. Adivinhem como os cientistas e os alienígenas se comunicam e encontram harmonia: através da música, da arte – e, claro, de um show de cores. Não há animosidade, apenas respeito e interesse mútuo pelo desconhecido. Spielberg, embora navegue pela irresponsabilidade de Roy, propõe um desfecho humano e sensível. Não poderia deixar de citar os elaborados efeitos especiais. Richard Dreyfuss oferece, inegavelmente, uma boa performance. Seus trejeitos, na medida em que se envolve mais com os extraterrestres, ficam mais intensos e seu olhar denota um misto de fascínio e perturbação. 

“Close Encounters of the Third Kind” é um ótimo exemplo de que grandes filmes podem despertar sentimentos contrastantes no espectador.

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