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“Minority Report” parte de um interessante conceito: a existência, no futuro, de um Departamento Estatal Pré Crime, capaz de antecipar assassinatos e impedir a sua consumação mediante à prisão ou eliminação prévia do suposto e potencial assassino. A princípio, parece o tipo de invenção que seria muito bem-vinda na contemporaneidade; todavia, ao analisarmos as nuances envolvidas, chegamos à conclusão de que sempre haverá um empecilho: a arbitrariedade inerente ao ser humano, que, diferentemente das outras espécies, tem a capacidade de discernir cenários e decidir com margem de discricionariedade. Podemos cravar que o assassino do futuro realmente cometerá o crime? Por que, em vez de encarcerar tais pessoas, o Estado não usa a tecnologia para educá-las? Trata-se de uma solução simplista, que ignora a complexidade humana e a própria natureza do projeto; afinal, os pré-cogs, responsáveis por antever as mortes, são humanos dotados de poderes especiais. 

E se a visão de um dos pré-cogs diferir? Ignora-se o caso ou se prende um potencial inocente? É o tipo de projeto que seria aceito pelos políticos de “Laranja Mecânica” – são medidas afirmativas que tampam a peneira, ignorando o real problema. E, claro, não existe interesse em reintegrar os prisioneiros à sociedade; as celas são infinitas. Logo no início, a partir de uma eficiente montagem paralela, vemos os agentes em ação, correndo contra o tempo para impedir um assassinato. No centro disso, está John Anderton, que chefia o departamento por um ideal nobre: seu filho foi morto e ele quer evitar outros casos assim. Anderton é um sujeito atormentado pela dor do luto e pela culpa, vivendo num apartamento bagunçado, sobrevivendo à base de uma droga futurística que o permite reviver o passado. Na sua cola, está Danny Witwer, um agente federal que desconfia da infalibilidade do “pré crime” e anseia por seu posto. Witwer é interessante, pois, ao mesmo tempo em que não esconde sua ambição, desconsidera a possibilidade de ser desonesto, correndo atrás apenas da verdade. Outra figura relevante é Lamar Burgess, diretor do departamento, que, por trás da máscara do bom mocismo e do altruísmo, esconde verdades obscuras. Eis, então, que os pré-cogs, em seu procedimento padrão, determinam que Anderton matará alguém, dando início a uma série de perseguições. 

O protagonista luta por sua inocência, mas como prová-la? O sistema falhou? Alguém, tentando feri-lo, manipulou o futuro? Tom Cruise, então, faz aquilo que ama: correr, saltar e fugir de diferentes formas. Nesse sentido, o escopo das sequências de ação remete a “Disclosure Day”, o novo filme de Spielberg. O diretor constrói uma sensação crescente de claustrofobia, colocando Anderton em ambientes povoados, enquadrando-o atrás de grades e optando por close-ups. O mais fascinante, em “Minority Report”, é a concepção do universo. A direção de arte apresenta espaços limpos, dominados por telas, sem muitas cores ou ânimo. As armas e os carros futuristas, além de outros meios de transporte, são detalhes que conferem verossimilhança à narrativa. A fotografia concebe um mundo de luzes brancas, tons azulados e sombras, conseguindo nos afastar do presente, questionar a idoneidade do governo e refletir o estado emocional de Anderton – os flashbacks, com seu filho, são ensolarados, cheios de esperança. Isso sem falar nos figurinos, predominantemente escuros. Eu também gosto como, numa rápida passagem, Spielberg e os roteiristas inserem outra camada de pessimismo em relação ao futuro: as pessoas não buscam mais relacionamento – nem a prostituição é “real”–, preferindo estímulos cibernéticos que simulam o ato sexual. Falando em Spielberg, sua câmera está a todo vapor, imprimindo um alto grau de energia e tensão. Ele concebe alguns dos quadros mais vistosos e expressivos de sua carreira. Por duas vezes, existe uma tensão digna de duelos – primeiro, entre Anderton e Witwer; depois, no fim, entre o protagonista e Burgess. Percebam que, neste último, o plano é mais fechado e não há outro elemento em cena, o que salienta a chegada do clímax. O ângulo holandês e a enorme sombra, visível num elegante plongée, escancaram o verdadeiro antagonista. Em outro momento brilhante de decupagem, Spielberg e o montador, através de uma perfeita sequência de três planos, sendo, o último, aberto, fomentam uma sensação de desconforto e incerteza arrepiante. Poucas palavras são ditas, mas, a partir da gramática visual, temos plena noção de que algo pode acontecer e que alguém acabou de ser desmascarado.

Tom Cruise oferece uma performance completa, reafirmando o posto de astro de ação sem perder a carga emocional. Colin Farrell traz um charme inescrupuloso convidativo, sendo o contraponto ideal a Cruise. Max von Sydow, sempre que pode, rouba a cena, provando ser dono de uma imponência inconfundível. “Minority Report” é uma das grandes ficções científicas da carreira de Steven Spielberg.

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