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Como se filma uma coisa que não tem imagem

Milagre não tem imagem. Graça não tem imagem. A presença de Deus, seja lá o que isso signifique pra cada um, também não tem. É por isso que os filmes sobre fé são os mais difíceis que o cinema já tentou fazer, e mesmo assim ele nunca parou de tentar. O que segue são cinco curiosidades sobre essas tentativas, e elas têm uma coisa em comum: quase nenhum desses diretores tinha certeza sobre o assunto quando pegou a câmera.

O Vaticano elogiou o filme de um ateu

O melhor filme já feito sobre a vida de Jesus, segundo a própria Igreja, é de um diretor que não acreditava em nada daquilo. Em 1964, Pier Paolo Pasolini era ateu, marxista e homossexual, e dirigiu O Evangelho Segundo São Mateus.

O reconhecimento católico veio na hora: o filme levou em Veneza o prêmio do escritório internacional católico de cinema, ainda em 1964. E em 2015, o L’Osservatore Romano, jornal oficial do Vaticano, escreveu com todas as letras que é o melhor filme sobre Cristo já realizado.

Um documentário de 25 países sem uma única palavra

Samsara, de Ron Fricke, é o filme mais estranho desse conjunto. Rodado em 70 milímetros ao longo de cinco anos, passando por 25 países, ele não tem diálogo, não tem narração e não tem ninguém explicando o que está na tela. É imagem e música do começo ao fim.

Fricke é o mesmo de Baraka, e a palavra samsara vem do sânscrito para o ciclo de nascimento, morte e renascimento. É o único filme da seleção que não nomeia Deus nenhum. E talvez seja justamente por isso que ele chegue mais perto de filmar aquilo que a gente chama de sagrado.

São Francisco foi interpretado por frades de verdade

Em As Flores de São Francisco, Roberto Rossellini não escalou atores para viver os franciscanos. Escalou frades reais. O resultado é o santo mais querido do catolicismo tratado não como estátua, mas como um bando de homens tentando ser bons e se atrapalhando no caminho.

Neorrealismo aplicado à santidade.

E tem um nome no roteiro que quase ninguém espera encontrar ali: Federico Fellini assina a coautoria.

A trilogia de padres em crise que ninguém planejou

Diário de um Pároco de Aldeia (Robert Bresson) é de 1951. Luz de Inverno (Ingmar Bergman) é de 1963. Fé Corrompida (Paul Schrader) é de 2017. Três países, três diretores, sessenta e seis anos de distância, e a crítica costuma tratar os três como uma trilogia informal sobre padres em crise.

Vale uma ressalva sobre a leitura mais comum desses filmes. Muita gente diz que são obras sobre padres que perdem a fé. No caso do Bresson, é o contrário: o padre é testado o tempo inteiro, atravessa um sofrimento enorme, e é exatamente aí que mora a fé maior. O que sobra no fim é a graça.

No Brasil, a fé é assunto de documentário

Aqui o tema aparece sobretudo no documentário. Santo Forte, de Eduardo Coutinho, e Apocalipse nos Trópicos, de Petra Costa, que olha para a comunidade evangélica pelo prisma do neopentecostalismo, são dois dos exemplos mais fortes.

Mas quem foi mais longe talvez tenha sido Nelson Pereira dos Santos. Em O Amuleto de Ogum e Tenda dos Milagres, ele filmou a fé de matriz africana como manifestação antropológica e como estratégia de sobrevivência de um povo, que é o sentido original da palavra religião: religar.

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