O ator que abriu a Nova Hollywood e virou o vilão favorito dela
Quem foi Dennis Hopper?
Dennis Hopper foi ator, diretor e fotógrafo americano, nascido em 17 de maio de 1936, em Dodge City, no Kansas, e morto em 29 de maio de 2010, em Venice, na Califórnia, aos 74 anos, de câncer de próstata.
A carreira dele tem uma forma incomum. Em vez da linha ascendente que se espera de um astro, é uma sequência de picos e desaparecimentos: a estreia ao lado do James Dean nos anos 50, a revolução de 1969, o exílio dos anos 70, a volta em 1986 e duas décadas fazendo vilão para Hollywood. Foram duas indicações ao Oscar, uma por roteiro e uma por atuação, e nenhuma vitória.
De Dodge City ao set do James Dean
A entrada de Hopper no cinema aconteceu cedo e pela melhor porta possível. Com menos de 20 anos, ele apareceu em Juventude Transviada, de 1955, e em Assim Caminha a Humanidade, de 1956, dois dos três únicos filmes que James Dean fez na vida.
Em seguida vem um detalhe que explica muita coisa. Em 1961, a primeira mulher dele deu de presente uma câmera fotográfica, e Hopper passou a década fotografando sem parar. Ou seja: enquanto construía carreira como ator contratado, ele estava aprendendo a pensar em imagem por conta própria. Essa formação paralela é o que separa ele dos colegas de geração, e ele mesmo dizia isso em entrevista: diferente de Peter Fonda, não vinha de família de cinema, tinha entrado no mercado como profissional e estava interessado em artes plásticas.
Sem Destino e o filme que abriu a Nova Hollywood
Sem Destino, de 1969, é o filme que divide a história do cinema americano em antes e depois. Hopper dirigiu, coescreveu com Peter Fonda e Terry Southern e interpretou o Billy, parceiro do Wyatt de Fonda numa viagem de moto pelos Estados Unidos.
Os números explicam o impacto. O filme custou entre 360 e 400 mil dólares e arrecadou 60 milhões no mundo. Além disso, levou o prêmio de melhor primeira obra em Cannes e rendeu duas indicações ao Oscar, uma de Roteiro Original para os três autores e uma de Ator Coadjuvante para Jack Nicholson. Na prática, Hollywood entendeu ali que dava dinheiro entregar filme para diretor jovem, barato e sem supervisão, e foi essa conclusão que abriu a porta para toda a Nova Hollywood. Em 1998, Sem Destino entrou no National Film Registry da Biblioteca do Congresso americano.
Uma curiosidade do set: o papel de Jack Nicholson tinha sido escrito para Rip Torn, que saiu depois de uma discussão com Hopper numa reunião em 1968.
O Último Filme e os dez anos de exílio
O segundo filme dele como diretor destruiu o que o primeiro construiu. Em 1970, Hopper levou a equipe para o Peru e rodou O Último Filme, em que interpreta Kansas, um dublê que abandona o cinema e fica no país, onde os moradores começam a encenar o próprio filme com câmeras falsas.
A montagem virou o problema. Ele atrasou a entrega em quase seis meses, destruiu uma primeira versão convencional depois de uma conversa com Alejandro Jodorowsky e terminou um corte fragmentado em 1971. O filme ganhou o prêmio da crítica em Veneza no mesmo ano, mas afundou nos Estados Unidos: saiu de cartaz depois de quatro semanas em Nova York. Como resultado, Hopper não dirigiu mais nada por dez anos e nunca escreveu outro roteiro. Voltou a trabalhar porque Francis Ford Coppola chamou ele para Apocalypse Now, em 1979.
Anos de Rebeldia e o fim do movimento
A volta à direção aconteceu quase por acidente. Hopper tinha sido contratado apenas como ator em Anos de Rebeldia, de 1980, e assumiu a direção na última hora, substituindo Leonard Yakir. Reescreveu o roteiro, trocou uma história de recuperação por uma tragédia e levou o filme para disputar a Palma de Ouro em Cannes, onde causou escândalo.
No filme, ele é Don Barnes, pai alcoólatra que jogou um caminhão contra um ônibus escolar, e Linda Manz é Cebe, a filha adolescente obcecada por Elvis e por punk. Apesar da recepção difícil na época, o filme virou objeto de culto: foi restaurado em 2019 com dinheiro levantado por Natasha Lyonne e Chloë Sevigny e hoje tem 95% de aprovação no Rotten Tomatoes. É o fim da Nova Hollywood filmado por quem tinha aberto o movimento onze anos antes.
1986, o ano em que Hollywood descobriu o vilão
A segunda vida da carreira dele começa num ano só. Em 1986, Hopper lançou quatro filmes: Veludo Azul, de David Lynch, Momentos Decisivos, O Massacre da Serra Elétrica Parte 2 e Juventude Assassina. O Frank Booth de Veludo Azul virou referência imediata, e a indicação ao Oscar daquela temporada veio por Momentos Decisivos, não pelo papel que todo mundo lembra.
Depois disso, o mercado passou duas décadas chamando ele para a mesma função. Foi o Rei Koopa de Super Mario Bros., em 1993, o matador de Red Rock West no mesmo ano, o Howard Payne de Velocidade Máxima, em 1994, o Deacon de Waterworld, em 1995, e o Kaufman de A Terra dos Mortos, em 2005. No entanto, reduzir ele a isso é perder o resto: no mesmo período fez Tom Ripley para Wim Wenders em O Amigo Americano e o pai de Patricia Arquette em Amor à Queima-Roupa.
O que sobra
Repara no que une a filmografia dele: o motoqueiro de Sem Destino, o dublê perdido no Peru, o pai violento de Anos de Rebeldia, o Frank Booth, o ex-motoqueiro de Juventude Assassina. São todos homens do lado abandonado dos Estados Unidos, gente que ficou fora do acordo. Hopper fazia isso melhor que qualquer um da geração dele porque conhecia o terreno.
Em março de 2010, dois meses antes de morrer, ele ganhou a estrela na Calçada da Fama. Chegou atrasada, como quase tudo na carreira dele.




