O Despertar do Desejo (1997)
Alan Rudolph é o rei dos dramas adultos sofisticados e moralmente complexos. Ele aprendeu muito com Robert Altman, produtor deste filme, mas nunca se limitou à condição de mero emulador de seu mentor. Tem algo de sedutor e misterioso na obra de Rudolph; algo que convida o espectador a universos que conseguem ser, ao mesmo tempo, peculiares e relacionáveis. Conhecemos aqueles dilemas, mas não da forma que Rudolph os aborda. Causa-me espanto o fato de “Afterglow” não ser amplamente conhecido e discutido. É o tipo de filme agradável, sacana e inteligente que Hollywood desaprendeu a fazer.
Somos apresentados a dois casais que, apesar das claras diferenças, passam por um período de instabilidade. Jeffrey é um executivo bem-sucedido, mas extremamente desgostoso sobre sua vida. Ele pensa apenas no trabalho, é incapaz de manter uma conversa interessante ou de demonstrar interesse por Marianne, sua esposa, e, sempre que pode, sobe no parapeito da varanda de seu escritório, numa tentativa de sentir algo além do costumeiro tédio. Suas falas são automáticas e cheias de ressentimento. Marianne, em contrapartida, quer um bebê e faz o possível para apimentar a relação. Trata-se de um desejo genuíno ou de um pré-requisito social que ela se sente obrigada a cumprir? Talvez a falta de sexo seja o problema principal; afinal, o que somos sem orgasmos? Jeffrey não quer um filho e, para piorar, aparenta ser dono de uma libido adormecida. O contraste entre os dois é evidente; suas prioridades são paradoxais. Rudolph reforça tal sensação a partir de enquadramentos em que vemos o casal separado por objetos e pela constante movimentação de ambos – a encenação da discórdia, de um relacionamento fadado ao fracasso.
Lucky Mann (um dos nomes mais geniais e irônicos de todos os tempos) é um “faz tudo” profissional. Phyllis, sua esposa, é uma atriz aposentada que passa os dias em frente à tv, assistindo a si mesma, contracenando com o outro grande amor de sua vida, o pai de Cassie, sua filha. Assim como no outro casal, há uma diferença enorme de necessidade e de estado de espírito. Lucky tem uma alma jovial, seduzindo suas clientes com seu visual de galã rebelde; Phyllis sofre por Cassie tê-la abandonado muito cedo, quando descobriu que não era filha de Lucky – de óculos escuros e lenço, ela assume uma condição fantasmagórica. Ambos guardam ressentimentos, mas é Phyllis quem parece ter desistido da relação, evitando contato físico e mantendo um ar de superioridade, de toques cínicos e irônicos. Phyllis sabe que o marido “aproveita bastante” o trabalho e tenta não se importar. Ela é narcisista a ponto de admitir que está sempre interpretando um papel. Em alguns close-ups, Rudolph examina essas “performances”, expondo a vulnerabilidade que há por baixo do ar de sofisticação. Lucky é um ser muito mais prático e objetivo. Sua questão é carnal – o que não quer dizer que também não seja emocional; tais forças dialogam entre si. Rudolph, por vezes, filma seus personagens através de espelhos, ressaltando quão multifacetados eles são.
O roteiro, então, embaralha os casais, que buscam soluções rápidas e efeitos certeiros para o vazio que os assola. Lucky é contratado por Marianne para construir um berço para seu bebê hipotético. O diretor, por meio de uma dinâmica de close-ups, olhares insinuantes e da proximidade dos corpos, cria uma atmosfera fervente – até que os dois, enfim, extravasam suas necessidades sexuais. As medidas de Marianne levam Jeffrey a ficar enciumado, tirando-o da inércia. Ele tenta espioná-la e se depara com Phyllis, fazendo o mesmo, no auge de seu charme misterioso. O executivo, um apreciador de mulheres “mais maduras”, fica encantado por sua elegância e ar melancólico. Rudolph respeita as individualidades de cada um, dando a cada “nucleo” uma característica particular. Se Lucky e Marianne se resumem à atração física, Jeffrey e Phyllis são movidos pela oportunidade de estar com alguém cerebral, sarcástico e frio – eles não transam, só flertam e brincam com as possibilidades de sair do cotidiano. Jeffrey, em especial, passa a abraçar uma honestidade que estava guardada em seu peito, cheia de raiva, paixão e dúvida. Rudolph organiza desencontros e insere um tom cômico, com um momento digno de “Screwball Comedy”, no qual todos finalmente se reúnem. “Afterglow” revela ser um filme sobre as tentativas de se reinventar enquanto ser humano e de tentar reencontrar o prazer em viver. Os casais, dispostos a uma segunda chance, parecem mais fortes. Encerrar o filme com “Somewhere”, de Tom Waits, é uma declaração e tanto; a carga dramática está sintetizada ali.
O elenco é espetacular. Nick Nolte tem a chance de mostrar o seu lado galanteador, combinando sedução e decadência com a destreza habitual. Julie Christie é quem oferece a performance com mais camadas. É difícil saber quando Phyllis está sendo realmente verdadeira. Lara Flynn Boyle e Jonny Lee Miller também estão excelentes.
“Afterglow” é um dos filmes mais subestimados que assisti nos últimos anos. Alan Rudolph merece um reconhecimento maior.




