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O galã que passou a carreira fugindo de ser galã

Ele demorou 35 anos pra estourar, virou astro numa minissérie de TV e usou essa fama pra escolher os papéis que ninguém queria. Foram três indicações ao Oscar e nenhuma vitória.

Existe um tipo de ator que não interpreta um homem quebrado: ele parece quebrar de verdade na frente da câmera. Nick Nolte é o caso mais extremo disso na sua geração. Enquanto os galãs dos anos 70 e 80 corriam atrás de papel de herói, ele corria pro lado contrário, atrás do policial corrupto, do bêbado, do sujeito no fim da linha. E a parte mais estranha da história é que ele tinha todas as condições pra fazer o oposto.

Quem é Nick Nolte?

Nick Nolte nasceu em 8 de fevereiro de 1941, em Omaha, no Nebraska. Tem 85 anos e continua trabalhando, com filmes lançados nos anos 2020 e projetos em pós-produção.

A carreira dele tem uma característica rara entre astros americanos: começou tarde e nunca dependeu de carisma fácil. Nolte construiu tudo em cima de personagens difíceis, e é por isso que o nome dele aparece em listas de grandes atores muito mais do que em listas de grandes bilheterias.

Do futebol americano ao teatro, uma carreira que demorou

Antes de ator, Nolte foi jogador de futebol americano. Passou por várias faculdades com bolsa de atleta, atuando como tight end e defensive end, e tinha sido expulso do ensino médio por episódios envolvendo álcool.

A formação veio depois, no Pasadena Playhouse e na Stella Adler Academy, seguida de anos de teatro regional pelos Estados Unidos. No fim dos anos 60 e começo dos 70, chegou a trabalhar como modelo. Ou seja: Nolte passou mais de uma década trabalhando antes de qualquer pessoa saber o nome dele.

O galã que recusou ser galã

A virada foi em 1976, com a minissérie Rich Man, Poor Man, da ABC, adaptada do romance de Irwin Shaw. Ela rendeu a ele uma indicação ao Emmy e o transformou, de uma semana pra outra, num galã de televisão pronto pra repetir a fórmula pelo resto da vida.

Ele fez o contrário. Usou o capital daquela fama pra ir atrás dos papéis mais ingratos que apareciam. Em Q&A, de 1990, dirigido por Sidney Lumet, faz um detetive de Nova York corrupto e racista que executa um homem a sangue-frio nos primeiros minutos e passa o filme tentando abafar o crime. Em Blue Chips, de 1994, dirigido por William Friedkin, é um técnico de basquete universitário que sempre jogou limpo e vai apodrecendo por dentro pra montar um time vencedor.

Três indicações ao Oscar e nenhuma vitória

Nolte foi indicado três vezes ao Oscar e nunca ganhou. Foram duas de Melhor Ator, por O Príncipe das Marés, em 1991, e por Aflição, em 1998, e uma de Coadjuvante por Guerreiro, em 2011.

O intervalo entre a primeira e a última é de vinte anos, o que diz mais sobre ele do que qualquer estatueta diria. Não foi um ator que teve um momento e sumiu. Foi um ator que a Academia reconheceu três vezes, em três décadas diferentes, sem nunca saber o que fazer com ele.

O homem mais sexy do mundo

Em 1992, a revista People elegeu Nick Nolte o homem mais sexy do mundo. É difícil imaginar escolha mais desalinhada com a carreira do sujeito, e ele mesmo achou. Perguntado sobre o título, respondeu: “Tem certeza que vocês não erraram? Minha escolha pessoal seria o Walter Cronkite.”

A piada vale como retrato. Nolte nunca comprou a própria imagem de astro, e boa parte das decisões de carreira dele parece um esforço deliberado pra desmontá-la.

O que sobra

Repara no que junta os personagens dele: um policial corrupto, um técnico que se vende, um ladrão viciado, um morador de rua, um jogador acabado. São todos homens no fundo do poço, e Nolte fazia isso melhor que quase todo mundo porque não tinha medo de descer junto.

É esse o pacote que faz o Nick Nolte valer tanto a pena. Um dos atores mais corajosos que Hollywood já teve, que preferiu sumir dentro dos personagens a brilhar por cima deles.

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