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Em 1976, o mundo se deu conta do poder do cinema de Brian De Palma. “Carrie” é, até hoje, um de seus principais trabalhos (quiçá o melhor) e nos remete a um período em que o terror era pensado por artistas que não tinham medo de explorar o que há de mais sofisticado na linguagem cinematográfica.

A abertura, por si, já é uma obra prima. Em câmera lenta, somos levados ao vestiário, onde as jovens tomam banho e se trocam. De Palma costuma trazer o lado voyeur do ser humano à tona e, atrelado a isso, cria-se uma dualidade: a pureza da juventude e dos corpos se confunde com o intenso vapor, que transforma aquele ambiente numa zona opressiva. Os créditos em vermelho são o tempero especial e servem de indício para o que acontecerá. A câmera vai até Carrie. Repentinamente, o banho vira um mar de sangue. O plano-detalhe dos olhos da protagonista destaca seu desconhecimento acerca do que está acontecendo. A menstruação, um fenômeno natural na vida de qualquer garota, é, para Carrie, motivo de pânico. Ela é a escolhida pelas colegas para sofrer humilhações e De Palma não demora a isolá-la das demais. As coisas ficam nítidas quando conhecemos Margaret, mãe de Carrie, que é uma fanática religiosa. Ao menstruar, sua filha se tornou uma mulher; ou seja, pecou – assim funciona uma mente retrógrada e perturbada. Seu figurino se assemelha ao de uma bruxa e sua casa, além de sombria, é uma espécie de antro da perdição evangélica. Nos jantares, iluminados por velas, as duas estão sempre acompanhadas da Santa Ceia. Em determinado momento, vemos o reflexo de Jesus por um espelho rachado. Ali, numa sutileza gigante, temos a diferença entre fé e loucura – só uma delas é quebradiça.

De Palma usa o Split Diopter, sua marca registrada, para realçar relações e formar vínculos. O cineasta ressalta o autoritarismo de Margaret sobre Carrie e a aproxima de Tommy. O roteiro pinta um retrato pouco lisonjeiro dos jovens, tratando-os, principalmente as garotas, como seres egoístas, fúteis e maldosos. Sue, embora, por vezes, siga a manada, é um ponto fora da curva. A fim de compensar a protagonista, ela pede para que Tommy, seu namorado, a convide para ir ao baile. Acontece que Carrie não é tão frágil assim; afinal, é dona de poderes telecinéticos que são brilhantemente pontuados pela trilha sonora. De Palma não explora esse dom, dando apenas pistas, quase espasmos, de que ela é capaz de mover e derrubar qualquer coisa. Nesse sentido, a montagem é essencial para a construção de tensão. Sissy Spacek constrói uma fortaleza de insegurança e medo, notável em seu retraimento corporal, mas demonstra uma força descomunal ao “brincar” de telecinese – o segredo está em seus olhos, tão expressivos quanto podem ser.

O terreno é preparado para o baile. Não é exagero algum dizer que esta sequência representa o auge de De Palma. Trata-se de uma aula de controle de tom e de como potencializar elementos estéticos. Antes, é importante salientar que, ao optar por ângulos holandeses na cena em que Carrie confronta a mãe, o diretor nos informa que a ordem, momentaneamente, se inverteu. No baile, Carrie surge cheia de esperança, acreditando estar vivendo o ápice de sua existência. A dança, sucedida por um beijo, é registrada em contra-plongée, com a câmera girando em torno do casal, o que ajuda a fomentar uma aura mágica. Poucos cineastas pensam a câmera lenta com tamanha sofisticação, preparando o espectador para uma drástica mudança de tom e apresentando a situação por completo. Sua câmera revela o potencial máximo da encenação. E não deixa de ser fascinante como De Palma usa a Split Screen para basicamente avisar: a partir de agora, prepare-se para o sangue. O vermelho passa a ser o símbolo da violência, inundando o ginásio com seu tom intoxicante. Até mesmo na morte de Margaret, De Palma demonstra uma inspiração fora do normal, provando ser dono de um refino para ironias.

O show é mesmo de Spacek, mas fica a curiosidade de Billy e Chris, o casal de calhordas, ser interpretado por John Travolta e Nancy Allen, que, cinco anos depois, voltaram a trabalhar com De Palma, em “Blow Out”. Intenso até o seu último instante, “Carrie” é um monumento do cinema americano.

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