David Lean é conhecido pelos épicos “Lawrence da Arábia” e “Doutor Zhivago”. No entanto, a joia de sua coroa talvez seja o singelo e doído “Brief Encounter”, que pode ser caracterizado como um “melodrama à inglesa”. Baseado em “Still Life”, peça de Noel Coward, que assina o roteiro do filme, “Brief Encounter” gira em torno de duas pessoas casadas que, após encontros fortuitos numa estação de trem, apaixonam-se.
A narrativa abre no momento de despedida; ou seja, antes de conhecer Laura e Alec, já sabemos que a relação que estamos prestes a acompanhar está fadada ao “fracasso”. De um ponto de vista estrutural, o que se deve ao belo trabalho de montagem e ao texto de Coward, o filme é uma verdadeira aula. A melancolia não surge aos poucos; ela é um ponto intrínseco àqueles personagens. A tragédia não está num ponto de virada do roteiro, mas no simples fato dos personagens não poderem viver aquilo que desejam. A noção do romantismo original, do século XIX, percorre a narrativa inteira. Laura, ao chegar em casa, depois de se despedir de Alec, que é médico e aceitou uma proposta para trabalhar na África, demonstra um impasse entre a soturnidade que a corrói e a vontade de se lembrar de tudo, por mais doloroso que seja. “Nada dura, na verdade, nem a felicidade nem o desespero. Nem mesmo a vida”. Fred, seu marido, é amável e atencioso, o que garante contornos complexos e reais à situação – seria fácil demais se ele fosse uma figura asquerosa. Laura construiu uma família, tendo, além de um companheiro, uma bela casa e dois filhos queridos. As pessoas se atentam a conceitos muito básicos, mas a felicidade não pode ser orquestrada de tal maneira. Há algumas semanas, Laura tinha certeza de que estava bem; agora, não tem dúvidas de que deixou escapar a grande chance de viver o esplendor. O roteiro respeita a volatilidade humana e entende que o grande regente do universo é o acaso.
Enquanto observa Fred jogando palavras cruzadas, a protagonista, cabisbaixa, relembra a história, como se estivesse conversando com o marido. É assim, através do voiceover, com o peso de quem olha para trás, não para frente, que observamos o desenrolar da paixão. As coisas simplesmente acontecem. Um cisco no olho na “hora errada” e ele está lá para ajudá-la. A lotação do restaurante os obriga a dividir uma mesa para dois. Poderia haver timidez ou estranheza, mas a química é instantânea. Detalhes que passariam despercebidos tornam-se cômicos e o cinema ganha um frescor especial. Eles não planejaram nada daquilo; todavia, não podem fingir que não foram traídos pelo coração. Todas as quintas-feiras, quando Laura vai às compras e Alec trabalha num hospital local, eles se encontram. Primeiro, vem a surpresa pelo inesperado; depois, a alegria por estar vivendo, não apenas sobrevivendo ao cotidiano; e, por último, a culpa por não estar agindo com sensatez. Lean aposta numa encenação que combina romance e contenção emocional. Os passeios – principalmente o de barco – são lindíssimos. No entanto, quando Alec admite estar apaixonado, não há rodopios ou cantoria; sua fala é contida, quase culposa, embora encoraje Laura a assumir a reciprocidade. A sequência se passa num ambiente isolado, onde ninguém pode julgá-los. Não deixa de ser curioso que, após Laura chorar e abraçar Alec, a montagem nos leve ao sino da estação de trem, cuja força remete ao martelo de um tribunal. “Nenhum de nós é livre para amar”.
Em seus close ups, Lean destaca um misto de angústia e liberdade. Uma dualidade lindamente estabelecida quando os personagens, no beco da estação, imersos em sombras, beijam-se – ali, reside a tragédia de uma beleza sufocada; de algo que, por razões “justas”, jamais se concretizará. A questão vai além do olhar da sociedade, sendo, primordialmente, sobre a dificuldade de abandonarem suas respectivas famílias. Não soa justo, não parece certo. Eles não fizeram nada de errado. Mas, em questões do coração, existe razão? O dilema moral segue até hoje. Não tenho dúvida de que Wong Kar-wai admira “Brief Encounter”. Seus filmes também se debruçam sobre a falta de timing em meio à paixão. O timing, aqui, é simbolizado pelo trem. É ele quem “organiza” o primeiro encontro; e é ele quem os separa. O sino é o estrondo do adeus, mas os trilhos também marcam a chegada. Na estação, o espaço é, ao mesmo tempo, de alegria, dor, esperança e pensamentos destrutivos. A sequência em que Laura pensa em se suicidar é de um primor raríssimo. A câmera se inclina, chegando num ângulo holandês, simulando a angústia da protagonista, potencializada pelo som da locomotiva. Como o trem, que sempre segue adiante, eles terão que buscar forças para superar a tristeza.
Celia Johnson e Trevor Howard oferecem performances delicadas, num belo exemplo de contenção emocional. Ambos transmitem uma gama imensa de sentimentos com pouco. E mais: são atores com aparências comuns, que fogem do arquétipo do astro de cinema, trazendo a história para um contexto relacionável – pode acontecer com qualquer um.
“Brief Encounter” é uma obra prima. Sem dúvida, uma das maiores tragédias românticas trazidas à grande tela.



