Jack é um motorista de limusines. Melancólico, ele acorda sozinho em sua cama, veste uma roupa que o cobre inteiramente e se prepara para um cotidiano pacato e previsível. Seus amigos, Clyde e Lucy – um casal – o apresentam Connie, uma mulher tão desesperançosa e solitária quanto ele.
Jack não se considera interessante, nem atraente, mantém um tom de voz suave e tem dificuldades em expor sentimentos. Seus convites são sutis e partem de um tremendo esforço, que denota uma vontade genuína de se envolver com alguém. Um passeio de barco é uma boa opção, no entanto, faltam seis meses para o verão e o protagonista não percebe o quão absurdo essa espera é. O interesse de Jack em aprender a nadar e cozinhar são simbólicos: no fundo, ele quer apenas aprender a se relacionar amorosamente. Mesmo adulto, podemos constatar que nada de muito importante aconteceu em sua vida. O protagonista está disposto a acordar, sair do buraco em que se enfiou e desafiar os limites de sua timidez.
Connie se considera uma pessoa incapaz de ser amada. Ela também se trancou em seu próprio universo, todavia, diferentemente de Jack, passou por traumas intensos. Temos a oportunidade de vê-la sendo assediada por seu chefe e de ser brutalmente atacada por um homem no metrô. Sensíveis e assustados, os dois passam a se encontrar, sabendo que estão, reciprocamente, diante de alguém especial.
Philip Seymour Hoffman, diretor do filme, mantém uma atmosfera delicada, tratando idas ao cinema e o primeiro beijo como situações significativas, respeitando a personalidade introspectiva dos personagens. O mais fascinante em sua abordagem é a opção por não mostrar “tudo”. Não assistimos Connie sendo atacada no metrô, inclusive ficamos em dúvida em relação às pretensões do delinquente. Somente depois, a vemos ensanguentada, o que acaba intensificando a violência – o espectador pode visualizar o que quiser –, além de respeitar o tom sutil do filme. Também não presenciamos o momento em que Jack e Connie vão para a cama, Hoffman está mais interessado em apresentar um outro tipo de intimidade, uma que vem antes dos anseios sexuais. Sua obra é sobre respeito, carinho e acreditar em si. Quando eles finalmente transam, sentimos que certas coisas foram conquistadas posteriormente – nada é gratuito, pelo contrário, bastante maduro.
Me refiro à intimidade de uma maneira bem ampla. O toque que a sua parceira sente mais prazer, um abraço e, principalmente, palavras honestas e belas, saindo de suas bocas sem segundas intenções ou qualquer esforço aparente. Hoffman constrói um romance duro e sincero, preciso por não cometer a tradicional falha de se escorar em clichês.
Ressaltaria também o seu cuidado com as emoções dos personagens, saindo de um plano fechado para um bem aberto em situações desconfortáveis.
Hoffman não é um diretor egoísta, seus coadjuvantes têm o devido espaço e importância, tanto para o arco da trama quanto para os seus próprios.
Clyde, colega de trabalho de Jack, é um homem experiente, que fala sobre relacionamentos e temas em geral com certa propriedade. Entretanto, quanto mais próximos ficamos dele, percebemos que seu casamento é frágil e instável. Lucy já o traiu algumas vezes e o afeto, que um dia os uniu, parece ter se perdido ao longo dos anos. Relacionamentos são cheios de altos e baixos e o roteiro, inteligentemente, não foca somente na descoberta do protagonista e de Connie, explorando a outra face dos romances, a que ninguém quer ver ou experienciar. O melhor exemplo de como Hoffman consegue balancear os extremos, é a tão aguardada cena do jantar, que deveria ser um marco para os apaixonados, porém se transforma em uma zona de guerra, na qual feridas são desferidas, culminando no fim do casamento de Clyde e Lucy.
O desfecho é espetacular, justamente por mostrar os dois lados da mesma moeda sem dizer nada – abraçados, Connie e Jack caminham na direção oposta do agora melancólico Clyde.
Seymour Hoffman oferece uma performance tranquila e abatida. Sua já mencionada entonação merece elogios, assim como as esporádicas tosses – trejeito que indica nervosismo. Sua felicidade é palpável, não passa por “pulinhos”, mas por reações e convicções. O único momento em que Seymour Hoffman “sai um pouco do personagem”, é aquele no qual Jack se estressa e grita, liberando sentimentos presos até então. Poucos atores são tão competentes, versáteis e talentosos.
A fotografia vai no óbvio, abusando de tons frios, acinzentados e azulados, a não ser no final, quando o “verão” finalmente chega.
A casa de Connie é um belo complemento à sua caracterização: simples, sem muitas cores e um tanto bagunçada.
A montagem tem um papel fundamental na psique dos personagens, explorando seus mais profundos desejos. E é extremamente satisfatório chegar ao fim e notar que as coisas finalmente deram certo para pessoas tão acostumadas com a solidão.
“Sou um bom nadador”. Sim, Jack, você conseguiu.
“Jack Goes Boating” é um filme terrivelmente subestimado, que deixa o espectador triste, imaginando quais seriam os próximos passos de Seymour Hoffman como cineasta.

