Skip to main content

The Double Life Of Veronique (La double vie de Véronique, 1991)

“A Dupla Vida de Véronique” é um filme profundamente misterioso. Não me refiro a mistérios detetivescos, mas a algo intrínseco à trajetória humana. Não existem respostas, apenas sensações contrastantes. Beleza, medo, tristeza, confusão… Kieslowski estrutura seu filme como um poema; em vez de estrofes e versos, temos uma encenação que nos transporta para um lugar especial. 

Começamos acompanhando Weronika, uma jovem cantora polonesa. “Tenho um estranho pressentimento. Sinto que não estou sozinha”. Ela é introduzida de branco, em meio à chuva, cantando lindamente – uma figura delicada e angelical. A fotografia investe em tons intensos e expressivos, que reforçam a dimensão poética da narrativa. O verde é predominante, mas o vermelho, que ressalta o quanto a protagonista é amorosa e cheia de vida, o laranja e alguns tons de sépia também ajudam na concepção metafísica de Kieslowski, que aposta em padrões visuais para estabelecer uma conexão. Falando em cores, a junção entre o vermelho e o verde, que dividem alguns espaços, é um dos grandes símbolos da narrativa. Repentinamente, andando pelas ruas, Weronika passa mal. A roupa preta e o cenário fúnebre ao fundo servem de indício para o que está prestes a acontecer, assim como o ângulo holandês, que reflete sua desorientação. Na próxima audição, a protagonista veste outra roupa de tons escuros, contrastando com o branco do início. Como Kieslowski aproxima Weronika de seu pretendente? Ambos estão com casacos de detalhes verdes – da mesma tonalidade –; ela corre atrás dele e pega uma carona de moto. As rimas e os fraseados do diretor polonês revelam sua capacidade de transformar sentimentos e relações em mise en scène, sem qualquer tipo de exposição barata. De preto, no meio do concerto, Weronika desaba, falecendo de um problema cardíaco. 

Eis que somos transportados para Paris, onde a “nova” protagonista, Véronique, vive. “Não sei por quê. É como se estivesse aflita”. Os padrões estéticos se mantêm; o universo lírico polonês é transposto para a França. Véronique também é uma cantora exuberante; todavia, após sentir a tal aflição, desiste da carreira. Não são apenas as cores que se repetem: Kieslowski investe em planos nos quais ambas as personagens, próximas de vidros, veem-se diante de seus próprios reflexos – ou seria uma outra versão de si, uma que vive em outro país? Véronique está profundamente abalada, mas não sabe o motivo. É como se tivesse perdido alguém, mas todos ao seu redor estão bem. O pulôver vermelho, a fita, o pequeno globo e a música são outros elementos que fomentam um laço invisível e absolutamente misterioso. A morte de uma salva a vida da outra? Somos tão únicos e especiais assim? Existe uma outra versão nossa por aí? Talvez melhor; talvez mais deprimida. Kieslowski evita respostas, porque não as tem. Weronika e Véronique são mulheres cercadas por parentes amáveis e carinhosos. Elas têm amantes ocasionais, mas são jovens solitárias; suas almas carregam uma melancolia que Kieslowski tenta expor. Véronique começa a receber correspondências peculiares de um potencial admirador secreto. Trata-se de pistas que a levam a uma estação de trem. Alexandre Fabbri, o admirador, é um escritor infantil e marionetista; ou seja, um homem que controla universos, definindo o futuro de personagens e estando a par de algo que, na vida real, é impossível: o acaso. Uma relação, no mínimo, curiosa. O momento mais arrebatador do filme é aquele em que a protagonista, ao rever fotos de uma viagem que fez para Cracóvia, depara-se com a imagem de Weronika. Ela está olhando para si, mas não é ela. Véronique desaba em lágrimas, sentindo-se menor, impotente e desvalorizada. 

Irène Jacob venceu o prêmio de melhor atriz no Festival de Cannes. Todos os elogios e láureas não fazem jus ao tamanho de sua performance. Tudo é sutil, intenso, puro e dúbio. Jacob dá vida a duas mulheres, mas interpreta apenas uma. Há diferenças entre Weronika e Véronique; todavia, o cerne que sintetiza e une ambas está em uma única performance. Eu não poderia deixar de citar a lindíssima trilha sonora de Zbigniew Preisner, colaborador habitual de Kieslowski.

“A Dupla Vida de Véronique” é um dos filmes que melhor traduz a complexidade e os mistérios da trajetória humana.

O que você achou deste conteúdo?

Média da classificação / 5. Número de votos:

Nenhum voto até agora. Seja o primeiro a avaliar!