O mestre do cinema B que escondia crítica social em filmes de monstro
Poucos cineastas americanos foram tão prolíficos, tão inventivos e, ao mesmo tempo, tão à margem do prestígio oficial quanto Larry Cohen. Trabalhando quase sempre com orçamentos baixos e prazos apertados, ele transformou gêneros considerados “menores”, em veículos para uma crítica social afiada e um humor corrosivo. Diretor, roteirista e produtor dos próprios filmes, Cohen construiu uma obra incrível, cultuada por cinéfilos e cineastas, mas raramente reconhecida pela crítica de prestígio, em vida.
Vida
Lawrence George Cohen nasceu em Nova York, em 15 de julho de 1936 (algumas fontes apontam 1941). Ainda no fim dos anos 1950, começou a carreira como roteirista de televisão, criou séries como The Invaders e escreveu para programas como The Fugitive, The Defenders e Columbo.
A passagem para o cinema veio no início dos anos 1970. Cohen chegou a comprar uma antiga mansão californiana, construída pela família de William Randolph Hearst, que se tornaria cenário recorrente de seus filmes, a começar pela estreia na direção, Bone (1972). Casado duas vezes e pai de cinco filhos, tinha o hábito de escalar a própria família em pontas nos seus longas. Morreu em Beverly Hills, em 23 de março de 2019, vítima de câncer.
Estilo e método
O método de Cohen é quase indissociável de sua estética. Ele filmava em Nova York no estilo “guerrilha”, muitas vezes sem autorização, aproveitando ruas, multidões e eventos reais. Em Foi Deus Quem Mandou (God Told Me To), rodou uma cena de tiroteio no meio do desfile real de St. Patrick’s; em Q: A Serpente Alada, filmou no alto do Chrysler Building. Dessa lógica de baixo orçamento e improviso nasceu uma assinatura: câmera solta, energia bruta e a cidade como personagem.
No conteúdo, sua marca é o uso do gênero como cavalo de Troia. O Chefão de Nova York (Black Caesar, 1973) reinventa a saga de ascensão e queda de Little Caesar dentro do blaxploitation, embalado pela trilha de James Brown. Nasce um Monstro (It’s Alive, 1974) usa um bebê mutante para falar de paternidade, medo e ansiedades de uma época, com trilha de Bernard Herrmann e efeitos de maquiagem de um jovem Rick Baker. Foi Deus Quem Mandou (1976), talvez seu filme mais aclamado pela crítica, mistura procedural policial, ficção científica e provocação religiosa numa trama de assassinos que dizem agir sob ordem divina. Q (1982) põe um deus asteca no topo de Nova York; A Ambulância (The Ambulance, 1990), seu último longa para o cinema, transforma a paranoia urbana em suspense. Em quase todos, um universo moralmente ambíguo, sem heróis limpos nem vilões absolutos, e colaboradores recorrentes como o ator Michael Moriarty.
Prêmios e reconhecimento
Diferentemente de muitos autores celebrados em festivais, o reconhecimento de Cohen veio menos de troféus e mais de admiração e influência. Com base nas informações disponíveis, recebeu em 1988 o George Pal Memorial Award, da Academy of Science Fiction, Fantasy and Horror Films. Em 2017, sua trajetória virou tema do documentário King Cohen. Nomes como Guillermo del Toro, Edgar Wright, Quentin Tarantino e os irmãos Coen já o citaram como referência ou o homenagearam publicamente.
Legado
O legado de Cohen é o de um artesão do impossível: prova viva de que um filme de monstro pode ser também um comentário sobre consumo, racismo, fé ou paranoia urbana. A partir dos anos 1990, dedicou-se sobretudo a roteiros para outros diretores, o que ampliou seu alcance muito além dos próprios filmes. Nunca foi um autor de prestígio mainstream, e parecia não se incomodar com isso: preferia ser um roteirista que nunca parava de trabalhar a um nome festejado sem ter o que dirigir. Hoje, sua obra passa por uma redescoberta crítica que confirma o que seus admiradores sempre souberam, \ não se fazem, muitos cineastas como Larry Cohen.




