A garotinha brinca com a bola. A câmera nos direciona a um panfleto: “Quem é o assassino?”. Eis que surge uma enorme sombra. Parece simples, mas estamos falando do cinema no ápice de sua sofisticação. Após se consolidar como um dos mestres do expressionismo alemão, ao longo da década de 20, Fritz Lang, em 1931, decidiu realizar seu primeiro filme sonorizado. “M” dialoga intensamente com os trabalhos anteriores de Lang, ao mesmo tempo em que revela o seu lado Noir, que viria a ser explorado anos depois, em Hollywood.
Em “M”, o terror paira sobre Berlim, atormentada por um misterioso assassino de crianças. Lang reflete sobre a Alemanha daquele período, prestes a ser dominada por um terror ainda maior. Não há pistas. As autoridades fazem o possível, mas as “testemunhas”, confusas e apavoradas, só as afastam da verdade. Os planos-detalhe de mapas reforçam a minúcia para se chegar a uma conclusão. Lang, por vezes, utiliza plongées, em conversas ou em tomadas nas ruas, fomentando uma atmosfera de vulnerabilidade e desesperança. Os olhares tortos não mentem: qualquer um pode ser o assassino. O silêncio e as ruas vazias e escuras são símbolos do suspense e do medo. O mesmo vale para os planos em que vemos um amontoado de pessoas desesperadas por respostas. Lang, quando movimenta a câmera pelos espaços, parece procurar alguém, como se investigasse as possibilidades do caso e a identidade de seres aparentemente comuns. A opção por não mostrar Hans de imediato é perfeita, pois coloca o espectador numa posição similar. Os olhos esbugalhados e a baixa estatura formam uma figura curiosa, que, por parecer tão inofensiva, soa perturbadora. Rostos que escondem demônios de intenções sinistras são os mais hipnotizantes.
Lang, mesmo após apresentar Hans, faz questão de sustentar seu anonimato. Em um restaurante, o diretor o filma atrás de uma janela, com galhos e folhas na frente. O ímpeto investigativo deixa de ser apenas dos policiais, passando a intrigar outros bandidos, que, pelo fechamento de estabelecimentos e pela possibilidade ter suas reputações manchadas, decidem ir atrás do assassino. “Ele precisa ser morto, eliminado, exterminado!”. Fica evidente que existe um código moral dos meliantes e que Hans o violou. Nestas reuniões, o mais fascinante é o alinhamento que Lang e o montador estabelecem entre os bandidos e os policiais. Através de um elegante Raccord – o movimento da mão do líder criminoso é “finalizado” pelo chefe do departamento policial -, somos informados de que os diferentes grupos querem a mesma coisa. Há, também, em ambas as mesas uma fumaça intoxicante, que dialoga com a estética Noir e funciona como um símbolo que “encobre” a verdade. Os bandidos, com as manhas e os contatos, aproximam-se de Hans. O plongée, desta vez, coloca o assassino numa posição vulnerável – uma rima visual que funciona muito bem. No fim, inicia-se outro debate: o que é o certo a se fazer? Neste caso, quem decide: o povo ou o Estado? Morte seria revidar na mesma moeda, mas até que ponto isso não transformaria as pessoas em monstros? Encurralado, o assassino fica diante de uma multidão. A lenta panorâmica expõe a fúria e o abatimento de uma população – Lang nos convida a entender todos os lados. Quanto mais escutamos Hans, mais nítida fica a sua condição. Trata-se de um homem atormentado, doente, completamente fora de si. Devemos ter compaixão? A linha é tênue e a impossibilidade em tomar um partido é o que nos torna humanos. As instituições devem representar algo além da compreensão humana; um tipo de imparcialidade e empatia que não nos pertence inteiramente.
Peter Lorre, embora não tenha tanto tempo de tela assim, oferece uma performance assombrosa. Pensando em uma interpretação contemporânea, me veio à cabeça Jason Butler Harner, em “A Troca”, de Clint Eastwood. Há voracidade e fragilidade; insegurança e brutalidade. Lorre compõe um monstro multifacetado que será lembrado eternamente. “M” é um filme chave na história do cinema.




