Steven Spielberg nunca negou suas raízes. Em entrevistas e documentários, ele fala abertamente sobre a relação que tem com o judaísmo e o bullying que sofria na escola – algo explorado em “The Fabelmans”, de 2022. Sobre o tema, “A Lista de Schindler”, por tê-lo consagrado no Oscar e por ser um filme que toca tantos corações, sempre será o seu projeto mais lembrado quando tal tema for levantado. No entanto, acredito que “Munich”, 2005, talvez seja a grande obra prima de sua carreira. Tendemos a ver Spielberg como um cineasta do grande espetáculo, com tendências melodramáticas. Em “Munich”, ele se afasta do estilo que o consagrou, apresentando uma obra sombria, densa e tecnicamente impecável.
Após o massacre nas Olimpíadas de 1972, em Munique, no qual o grupo terrorista palestino Black September matou 11 integrantes da equipe olímpica israelense, um contra-ataque é organizado. Avner Kaufman, um agente do Mossad, e quatro judeus voluntários formam um grupo fantasma, sem qualquer laço oficial com Israel, com o intuito de assassinar 11 palestinos envolvidos no atentado. Dirigidos por Ephraim, oficial do Mossad, os cinco partem pela Europa, comprando informações sobre o paradeiro dos alvos com Louis, um francês misterioso, que afirma não estar envolvido com nenhum tipo de governo. Na primeira refeição, Avner, à cabeceira, coloca-se como o líder da missão. Ele está prestes a se tornar pai, mas não sabe quanto tempo terá que ficar fora de casa. “Munich” é um thriller político irrepreensível, regido por um diretor no auge de sua inspiração formal. Nas sequências em que o grupo põe seus planos em ação, Spielberg consegue, ao mesmo tempo, fomentar tensão, indicar quem são os alvos e ressaltar o cuidado que os personagens têm para se manterem “invisíveis”. A articulação entre zooms e panorâmicas revelam a mise en scène do sigilo, em que cada um está posicionado milimetricamente, esperando a hora de agir. Spielberg faz um interessante jogo visual através de vidros e espelhos, destacando a precisão dos personagens com a elegância que lhe é peculiar. A montagem também pontua essa organização, fornecendo diferentes pontos de vista, e age como um catalisador de tensão. Em uma sequência envolvendo uma garotinha inocente, o uso de montagem paralela é perfeito ao ilustrar o desespero de Avner, que quer seguir o roteiro que lhe foi entregue, sem danos colaterais. Após um dos assassinatos, o leite derramado se mistura com o sangue, numa imagem que não poderia ser mais simbólica. Avner, prestes a ser pai, espera pela notícia de uma nova vida enquanto coloca um ponto final em outras. Em outra operação, o protagonista, na varanda do quarto, é abordado pelo vizinho, o homem que, ao deitar-se na cama, será explodido por uma bomba. A conversa é rápida, mas o “alvo” é simpático e prestativo, levando-nos a questionar a linha tênue entre as diferenças político culturais e o fato de estarmos diante de seres humanos que, sem o pretexto bélico, podem dialogar normalmente. Avner chega a dizer que está sendo pago para obedecer a ordens e seguir a lista, não para raciocinar – este talvez seja o cerne de um problema tão antigo.
Diferentemente de muitos, geograficamente distantes do conflito, sem preparo para entender suas nuances políticas e humanas, prefiro não disparar opiniões pouco relevantes. O roteiro de “Munich” é a prova de que compreendemos pouco esta questão. Não é sobre ser pró “isso ou aquilo”, mas sobre entender que os meios de se acabar com o impasse não contemplam a complexidade humana. Avner começa a missão com tranquilidade, entendendo que precisa aniquilar aqueles que atacaram sua nação. Aos poucos, o roteiro dá voz ao outro lado. “Não sabe como é não ter um lar. Queremos uma nação”. O que poderia ser um retrato simplista e autocongratulatório, considerando a origem dos realizadores, transforma-se numa representação cíclica e exaustiva da violência. Matar líderes não enfraquecerá os palestinos. Novos líderes, ainda mais brutais, surgirão e os caçadores passarão a ser a caça – a base do conflito está nessa troca constante de posições. Carl, o mais sensato do grupo, é preciso ao analisar o contexto: “Agimos sempre como eles. Os palestinos inventaram a matança? Temos o controle da Terra sendo bonzinhos?”
Steve, o mais impulsivo, fala sobre a necessidade de revidar na mesma moeda e usa termos como “sangue judeu” – é justamente aí que reside a impossibilidade de se chegar à paz. Frases de efeito e termos inflamados por ódio nos afastam de qualquer chance de empatia e humanidade. Avner, preso à missão, passa a encarar a morte com naturalidade. Seu arco passa pela banalidade e chega à paranoia; afinal, Louis, fiel ao dinheiro, poderia virar as costas e cooperar com o “inimigo”, fornecendo informações sobre o seu paradeiro. E o peso das mortes? O trauma por ter destruído famílias? Avner e seus colegas foram um breve parágrafo numa redação que percorre séculos e que continuará a ser escrita por novos grupos. No retorno, em Israel, a fotografia faz do país uma zona pálida, com Avner sendo o fantasma mais assombrado pela suposta honra que deveria sentir. Sua família corre perigo? O que o carro parado do outro lado da rua significa? O protagonista entra em parafusos, numa profunda crise existencial que o obriga a abandonar a terra natal. Irônico, não? A luta é em prol da nação, da sensação de pertencimento, do orgulho territorial. No fim, Avner não pensa duas vezes antes de se mudar para os Estados Unidos. Os ambientes nos quais o grupo se reúne e descansa são dominados por sombras e por uma impessoalidade que faz jus ao anonimato que precisam manter. No decorrer da trama, as sombras e a escuridão crescem, salientando a angústia sentida por homens que passam a duvidar do real significado de “ser judeu”. Os close ups em Avner escancaram o vazio sentido pelo espectador – a humanidade ainda está distante de qualquer evolução real.
Em meio à tanta tensão, a sequência mais bela é, sem dúvida, aquela em que o protagonista, num quarto escuro, escuta, pela primeira vez, a voz de sua filha e desaba em lágrimas. A verdadeira casa, no fim das contas, é essa; é a que você realmente precisa proteger. O elenco conta com nomes de peso: Daniel Craig, Ciarán Hinds, Mathieu Kassovitz, Geoffrey Rush, Michael Lonsdale e Mathieu Amalric – todos excelentes. Dito isso, o show é de Eric Bana, que oferece uma performance primorosa, indo da sutileza e da calma à paranoia e ao cansaço extremo. Bana trabalha com uma contenção emocional rigorosa, o que torna seus momentos de “explosão” mais críveis e honestos.
“Munich” é o filme mais subestimado da carreira de um dos grandes nomes da história da sétima arte.



