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Em 1974, depois do excelente “Duel” e antes de “Tubarão”, Steven Spielberg dirigiu “The Sugarland Express”, um de seus trabalhos mais subestimados. Esse é um de seus filmes mais “puros” da Nova Hollywood, assemelhando-se a algo que Terrence Malick e Robert Altman fariam. A trama gira em torno de um casal que, após passar um tempo na prisão, perde a guarda de seu bebê. A fim de recuperar o filho, eles sequestram um policial e criam uma comoção nacional.

O roteiro combina dois elementos comuns ao cinema setentista americano: a rebeldia jovial e a violência. A começar que os protagonistas, embora determinados e subversivos, são figuras puras e ingênuas, que, mesmo empunhando armas e estabelecendo uma rota de caos, jamais passam a impressão de que seriam capazes de machucar alguém. Clovis Poplin, o marido, está no regime de “pré soltura”, com um pé nas ruas. Fugir, a esse ponto, é um atestado de impulsividade – claro, incentivado por Lou Jean, sua esposa. Era apenas para ser uma carona com senhores prestativos; no entanto, a situação sai do controle, obrigando-os a roubar a tal viatura e levar Slide, oficial da patrulha rodoviária, consigo. A narrativa, então, é estabelecida como a de um Road Movie. O filme está em constante movimento e é dotado de diferentes sabores, indo da tensão à comédia e ao drama pessoal com muita fluidez. Aos olhos do Estado, Clovis e Lou Jean representam um perigo para o próprio filho – são aquilo que há de pior na sociedade. Eles não buscam nenhum tipo de reconhecimento, indo atrás apenas daquilo que os pertence e que lhes confere um propósito maior numa vida tão corriqueira.

O casal não tinha a intenção de formar um circo midiático, com vans de imprensa e centenas de viaturas, mas é exatamente isso que acontece. Eles não são Bonnie e Clyde; só querem uma forma “segura” de encontrar o filho. Se o Estado fala em redimir o prisioneiro, qual o sentido em tirar o bem mais precioso de alguém que cometeu um leve delito? Os policiais, em sua maioria, pensam na saída simplista e rápida; todavia, há dois oficiais que captam a essência da situação e demonstram uma considerável empatia pelos “fora da lei”. Slide, que, sequestrado, percebe que está diante de jovens bondosos e carismáticos, tornando-se amigo deles ao longo do percurso. Tanner, o capitão, que poderia optar por medidas afirmativas, mas, ao conversar com o casal, decide ser permissivo, negociando variadas resoluções. Tanner sabe que os protagonistas estão numa encruzilhada e é justamente por isso que deixa o “jogo” fluir – é a forma que ele encontra para mostrar que o povo não está ao seu lado e que não sente orgulho do sistema nem das ordens que é obrigado a cumprir. No fim, há sempre um outro oficial, de um outro departamento, pronto para disparar o gatilho e mostrar que, nos Estados Unidos, nada é mais forte do que a lei, nem mesmo a humanidade e as nuances dos casos. 

As performances de Goldie Hawn e William Atherton são suficientemente poderosas para torcermos pelo casal. Eles brigam, discutem, riem, fazem as pazes… tudo com uma energia muito característica, oriunda dos filmes daquele período. Há um momento específico, bastante sutil, no qual Spielberg traduz a inocência dos dois. Deitados num trailer, os protagonistas aparecem em primeiro plano e, ao fundo, num Drive In, passa um cartoon. Falando em Spielberg, sua parceria com o lendário diretor de fotografia Vilmos Zsigmond não poderia ter sido melhor. Os planos das secas e vastas estradas texanas são belíssimas, transmitindo uma paz que dialoga com os personagens, não com a situação, que é explorada em sua magnitude, por exemplo, num plongée que pontua o mar de viaturas e num plano em que vemos vários carros subindo uma colina íngreme. Tanner é constantemente destacado nos enquadramentos como uma figura central, quase um analista. É interessante notar que, logo em seu primeiro longa feito para o cinema, Spielberg já adota o Dolly Zoom como um elemento fundamental, que indica algo que está prestes a acontecer. O último plano, em que vemos Tanner e Slide, em contraluz, próximos a um rio, é de um lirismo enorme – os únicos que sacaram tudo; os únicos que, após o conflito, estão emocionalmente devastados. John Williams, que ainda não era uma lenda, prova ser dono de uma versatilidade invejável, ditando os passos do casal com temas contidos e precisos. 

“The Sugarland Express” nos coloca diante de Spielberg antes de ser Steven Spielberg. Trata-se de um grande filme, um indicativo do que estava por vir.

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