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Un jeu brutal (1983)

Os filmes de Jean Claude Brisseau são tratados existencialistas. Seu cinema é considerado “difícil” por muitos, justamente por captar as ânsias mais primitivas e paradoxais que regem a trajetória humana. Em “Jogo Brutal”, ele apresenta dois personagens em diferentes estágios de suas vidas – em espírito e faixa etária.

No leito de morte, a mãe de Tessier pede para que ele retome contato com Isabelle, sua filha, que vive num convento. Tessier é um cientista brilhante, conceituado por suas pesquisas reveladoras, mas criticado por manter uma conduta de trabalho pouco amistosa. Tessier vive num estado de profundo isolamento. Ao rever Isabelle, ele não demonstra alegria, apenas a frieza que lhe é habitual. Cuidar dela não será um gesto afetuoso; sua alma, por algum motivo, está apodrecida. Tessier acredita numa educação rígida, quase militar, tratando a filha como um experimento de alta intensidade. A racionalidade, inerente ao seu trabalho, parece ter corroído sua passionalidade – não há diferença entre um besouro e uma pessoa. Tessier é um cientista, no mínimo, contraditório; afinal, o homem que precisa de respostas concretas não se atém a pedidos divinos. Brisseau traz à tela um sujeito que se considera superior aos demais; um sujeito que acredita ser o mensageiro de Deus, destinado a eliminar aqueles que foram enviados pelo Diabo. É difícil saber até que ponto podemos acreditar em suas falas. Tessier é intransponível; suas expressões e entonação, mesmo quando espanca a filha ou a deixa trancada por horas, não mudam. Eu entendo que Brisseau esteja falando sobre o fardo do isolamento e da impossibilidade da raça humana de não se relacionar. Tessier é um experimento. Um experimento que, ao ir contra a própria natureza, falhou – essa é a ironia trágica de seu destino.

Tessier não mata uma série de crianças e adolescentes por prazer, mas por não pertencer à nossa espécie. Suas leis e morais são outras, pouco desenvolvidas, causadas por uma mutação — não biológica, mas ética — que pode acometer qualquer um que transforme a solidão em princípio de vida. A solidão, quando vira um mantra, passa a ser uma doença. “Eu sei, por isso sou o maior”, afirma o protagonista, em um de seus delírios de grandeza. Brisseau é rápido e incisivo nas sequências de assassinato, estabelecendo uma atmosfera, simultaneamente, típica do thriller e anticlimática. Isabelle, que sofre de paralisia nas pernas, é fruto de uma “não-relação”, de um sujeito que a ensina a sentir ódio e rancor. Em determinado momento, enquanto explora a natureza, ela cai no lago e se afoga, sendo salva por Pascal, irmão de sua tutora. Da quase morte, inicia-se um ciclo de interesse por descobrir do que se trata a vida. O despertar sexual vai ao encontro da paixão, o que é encapsulado na sequência em que Isabelle e Pascal, nus, nadam no lago e naquela em que os dois chegam ao topo de uma montanha, como se tivessem atingido o topo da experiência humana. Quando ela o conhece, ainda inconsciente, ele veste um casaco vermelho, cor que contrasta com a morbidez de Tessier – sempre de terno preto. Depois, em alguns momentos, vemos Isabelle com uma roupa vermelha, numa demonstração de encantamento e vivacidade. Antes, a cor que a marcava era o azul claro, ligado à fragilidade e a uma certa melancolia.

No ímpeto de seu amor por Pascal, seu salvador, Isabelle descobre a dor da “traição”. Assim como o pai, ela passa por um experimento; todavia, o correto, aquele que nos molda às adversidades e à rotina. Isabelle está deixando de ser uma “inválida” revoltada para captar as complexidades de suas emoções. “Até já começo a gostar das pessoas que odiava”. Brisseau pensa numa mise en scène distanciada, que faz jus ao protagonista, fugindo de muitos close ups. Os tons azulados, os planos gerais que ressaltam o isolamento da casa e o espaçamento entre a câmera e os personagens nos convidam a uma perspectiva fria – sem falar nos ambientes em que Tessier assassina suas pobres vítimas. Por outro lado, os planos abertos da bela natureza, a conexão entre os corpos de Isabelle e Pascal e o destaque para o vermelho nos indicam que há uma tensão filosófica ali. Tessier mata, pois já está morto; Isabelle vive, pois, ao ressurgir da morte, percebe que nunca esteve tão viva. São experimentos; avisos de alguém que denuncia o valor da inexistência, do ato de negar o afeto. A razão de aspecto reduzida, comum nos filmes de Brisseau, não deixa de ser um elemento que confere intimismo e minimalismo à narrativa.

Bruno Cremer oferece uma performance assustadora, calcada numa sobriedade absoluta. Emmanuelle Debever, seu contraponto, é um ímã de sensações intensas, exibindo uma vontade genuína de se permitir viver o que a aflige e o que a encanta. “Um Jogo Brutal” é, como tudo que Brisseau faz, inquietante, humano e profundo.

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