Lançado em 2003, “Hulk” é a prova concreta de que filmes de herói podem ter substância, ao mesmo tempo em que respeitam as normas estéticas de seu material base. O projeto de Ang Lee é uma carta de amor ao cinema e às HQs; um filme que, em sua narrativa, emula a psique instável do protagonista.
“Hulk” exemplifica a essência de um trabalho autoral, de um diretor que fez exatamente aquilo que queria, sem intromissões do estúdio e de produtores. Você pode até não gostar do resultado, mas duvido que ficará imune à potência da obra. Assim que os créditos iniciais aparecem, com o tradicional logo da Marvel, já em verde, a trilha sonora de Danny Elfman nos informa que estamos prestes a embarcar numa jornada de tormentos e traumas. O montador Tim Squyre, colaborador habitual de Lee, demonstra um domínio raro para levar a linguagem dos quadrinhos à grande tela, optando por transições fluidas, que se assemelham a páginas virando, mantendo o diálogo com a câmera de Lee e a agilidade narrativa. As fusões e sobreposições de imagens são hiper estilizadas, funcionando quase como balões de fala ou desenhos feitos em tempo real. A energia depositada por Squyre, além de servir à ideia de uma HQ em movimento, reforça quão atormentada é a psique de Bruce Banner. As inserções de moléculas e flashbacks soam como gatilhos de uma arma, alimentando a confusão e a raiva do protagonista. Lee explora ao máximo as possibilidades da Split Screen, encaixando diálogos de uma forma pouco convencional e explorando diferentes perspectivas de um mesmo ambiente. A tela ampliada pode dar lugar a várias pequenas telas, com diferentes focos, o que ressalta o caráter experimental e sofisticado do trabalho do cineasta. Quando Talbot, o antagonista, surge pela primeira vez, sua tela se expande, “invadindo” o espaço de Bruce e Betty – e, considerando seu jeito intrusivo e inescrupuloso, tal introdução faz todo sentido. Uma estratégia visual similar é utilizada na sequência em que o protagonista é infectado pelos raios gama – nesse sentido, a dilatação da proporção da tela tem a ver com o tamanho da besta verde.
Betty, o elo sensível de Bruce, é quem consegue extrair um pouco mais de sua introspecção. Ainda assim, ele é incapaz de se expor totalmente, o que é destacado pelo sutil uso da baixa profundidade de campo, distanciando-os emocionalmente. A direção de arte não menospreza a vontade de Bruce de querer ter uma vida normal, marcando sua casa com cores vivas – amarelo e vermelho -, que afastam a noção de abraçar a melancolia. Os ambientes metálicos na base militar realçam que, ali, ele não é visto como uma pessoa que precisa de ajuda, mas uma arma que deve ser detida. O azul é um dos grandes símbolos da narrativa, salientando, simultaneamente, a tristeza de Bruce e Betty, que ama um homem “amaldiçoado” e não se dá bem com o pai, e a uma espécie de presença do mal, reforçada por David Banner, pai do protagonista, muito associado à cor – percebam como Lee foca nos olhos azuis dele e de Talbot. Todavia, David, com o desenrolar da trama, demonstra ser mais do que uma ameaça; ele é a tragédia inicial, o homem que, ao mudar o próprio DNA, deu vida a um “monstro”. Os tons frios, as sombras e o azul, aos poucos, indicam que David está preso à melancolia de não se sentir pertencido à própria espécie. Seus experimentos, uma tentativa de transcender, causaram somente dor e abandono. Sua casa, caótica e suja, é um reflexo de sua condição.
Em seus diálogos, Lee usa close ups, criando uma espécie de cordão umbilical impossível de se partir. A opressão e o medo causados por David em Bruce são ressaltados por um belo plano em que seu rosto fica dividido entre o azul e o vermelho – dois lados; duas criaturas fabricadas pela mesma pessoa. O verde, que aparece no início, em um brinquedo do pequeno Bruce, passa a ser um símbolo mais expressivo na medida em que os raios gama despertam o gene que sempre esteve dentro dele. No fim, a exuberância da natureza reflete o controle maior que Bruce tem de si. A transformação é tratada por Lee em diferentes etapas: primeiro, como uma carga invasiva, evidenciada por planos fechados; depois, pela expansividade nos movimentos da besta, que salta, corre e grita num ato de libertação. Bruce, que mal consegue falar sobre si e não guarda memórias do passado, precisa virar um titã descomunal para expressar tudo aquilo que nunca pode. A cada murro e ato, um sinal do mau trato paterno e da falta de identificação consigo mesmo. Os planos gerais nas dunas, no deserto e nos rochedos são empáticos em relação ao sentimento de Bruce, que, por mais que deteste ser uma ameaça à sociedade, gosta da sensação de “perder o controle”. Lee encontra o equilíbrio ideal entre a besta irracional e uma criatura incompreendida. Ao ver Betty, o olhar sereno aparece e Bruce sabe o que deve fazer.
Até os efeitos visuais, considerados datados, preservam um carinho ao estilo dos quadrinhos, fugindo do “realismo” que domina o cinema de herói contemporâneo. Dito isso, acredito que o que realmente tenha afastado parte do público é o fato de “Hulk” não ser um filme sobre um super-herói, mas sobre um homem aprendendo a lidar com seus traumas e demônios internos. Não há um foco grande em sequências de ação – aquela dos cachorros continua perturbadora até hoje – e Bruce não salva o mundo; pelo contrário, na maior parte do tempo, ele é uma ameaça a todos. O elenco conta com nomes sensacionais, como Sam Elliot, que interpreta o General Ross com a racionalidade militar necessária, enquanto mantém o afeto pela filha. Jennifer Connelly é uma figura misteriosa e melancólica, funcionando como alma gêmea do protagonista. Nick Nolte rouba a cena, encarnando o cientista louco com uma humanidade estranha, repleta de trejeitos, quase enigmática – é possível sentir pena e medo dele na mesma intensidade. Eric Bana é o Hulk mais fiel já visto nas grandes telas. Seu Bruce Banner é um sujeito reprimido e confuso que faz o possível para esconder a raiva que assola sua alma.
“Hulk” é um filme que deveria ser estudado em faculdades de cinema e apreciado como uma grande obra prima.



