Eu queria ser uma mosca para acompanhar as interações entre Brian De Palma e John Cassavetes no set de “The Fury”. O pai do cinema independente americano, conhecido por seu realismo cru, é dirigido pelo rei do maneirismo, o homem que pensa cada plano com o preciosismo de um arquiteto. Não tenho dúvidas de que as discordâncias foram inúmeras, o que não prejudicou o resultado final, afinal, “The Fury” é formidável.
Em 1978, De Palma já tinha uma certa reputação, alcançada, principalmente, por “Carrie”, lançado dois anos antes. Além de Cassavetes, o jovem cineasta teve, à sua disposição, o lendário Kirk Douglas e o maior orçamento, até então, de sua carreira. “The Fury” começa como um filme de Hitchcock: afastados, no Oriente Médio, Peter e Robin, pai e filho, planejam um retorno aos Estados Unidos. O garoto tem poderes telecinéticos e ainda não foi devidamente introduzido à sociedade. Ben Childress, ex-colega de Peter na CIA, também está lá. Repentinamente, inicia-se um ataque terrorista que, na verdade, foi um plano arquitetado por Childress, que agora chefia uma agência secreta que potencializa o poder de jovens como Robin para o governo americano usar em suas guerras. Alguns meses se passam e Peter, que conseguiu fugir da emboscada, vai em busca do filho.
Enquanto isso, acompanhamos Gillian, que também é amaldiçoada pela telecinese. Digo amaldiçoada, pois, aqui, possuir tal dom garante apenas uma vida mais sofrida e solitária. Estes jovens são comparáveis a objetos valiosos, testados com o entusiasmo de uma máquina revolucionária. Pior, eles nem sabem controlar os poderes e podem, a qualquer momento, ferir aqueles que amam. A princípio, Gillian desconhece as próprias habilidades, que são descobertas numa cena que reforça o seu descontrole perante a si e aos demais. Assustada, ela decide passar um tempo na Paragon, um instituto centrado em jovens com poderes psíquicos. De Palma apresenta um tempo harmonioso, destacado pela trilha sonora e pela montagem. Gillian parece segura, cercada por profissionais amáveis e competentes; todavia, ao tocar em um deles, o cineasta imerge o espectador no “tempo telecinético”, saindo da calmaria e investindo cortes em sequência, fechando o quadro, chegando a planos-detalhe. Vemos, então, que Robin já esteve em Paragon e que tentou fugir, saltando pela janela. Ou seja, de alguma forma, Gillian estabeleceu uma conexão com Robin e o instituto, aparentemente seguro, mantém uma relação de sustento com Childress.
Hester, funcionária da Paragon, informa a Peter, seu par romântico, sobre Gillian e a possibilidade dela ajudá-lo a encontrar o filho. A trama tem seus pontos intrigantes, mas o que sustenta o filme é o arsenal estético de De Palma, que, desde cedo, demonstrou uma preocupação enorme em se colocar como um autor. Seu uso de Split Diopter é sempre expressivo, sendo fundamental para ressaltar o efeito de certa força perante outra pessoa ou para evidenciar pontos de vista e conexões. “The Fury” despeja um caminhão de sangue na tela e os efeitos práticos se mostram bastante eficientes, funcionando dentro da lógica maneirista de De Palma. A opção por filmar a sequência mais tensa e letal em câmera lenta, com movimentos muito coordenados, não poderia ser mais fiel ao seu estilo – além de servir como uma ruptura visual, já que, momentos antes, a câmera nervosa e as panorâmicas salientavam o estado de Hester.
No fim, quando Peter finalmente encontra o filho, com a ajuda de Gillian, com quem constitui um belo laço fraternal, o filme é tomado por uma energia que faz jus ao título. Robin não é mais o garoto gentil do início, mas uma máquina que conserva e alimenta fúria. O quarto esfumaçado e seu rosto simbolizam a exploração de um ser cuja liberdade foi negada – o que lhe restou foi o poder, a maldição. Peter, por sua vez, carrega o fardo por uma busca ingrata e por pôr em risco a vida daqueles que ama. O roteiro tem coragem para fugir do lugar comum, respeitando a jornada dos personagens e o universo no qual estão inseridos. O desfecho consegue ser épico e satisfatório, ao mesmo tempo em que aponta para incertezas. A catarse imagética e o prazer pela vingança são inegáveis… e depois? O que será de Gillian?
É sempre um deleite acompanhar personagens inteligentes duelando, ainda mais quando são interpretados por titãs da estirpe de Kirk Douglas e John Cassavetes. O primeiro combina sarcasmo, peso dramático e entrega corporal em sequências de ação. O segundo não demora a transformar Childress numa figura ameaçadora – a mão “morta” é fundamental em sua composição. “The Fury” é um dos grandes filmes de um mestre da sétima arte.



