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O melodrama clássico talvez seja, ao lado do Western, o gênero “mais cinematográfico” possível. O que eu quero dizer? O melodrama, quando bem elaborado, traz consigo o que há de mais sofisticado na mise en scéne. Trata-se do gênero em que todos os elementos estéticos são elevados ao seu máximo potencial narrativo e artístico. “Written On The Wind”, de Douglas Sirk, o pai do melodrama, é, em todos os sentidos, uma verdadeira aula.

Kyle Hadley e Mitch Wayne são amigos de infância, quase irmãos. Ambos trabalham na enorme petrolífera de Jasper, pai de Kyle. A fortuna dos Hadley circula como uma maldição, aprisionando seus membros a vidas vazias e tristes. Kyle sempre teve tudo aos seus pés, o que o tornou uma figura introspectiva, que se expressa através do dinheiro, não de seus sentimentos. Ele é incapaz de demonstrar fragilidades; afinal, aprendeu, desde cedo, a ser um sujeito poderoso. O álcool é um companheiro fiel, presente quando não se pode mostrar vulnerabilidade. Marylee, sua irmã, vaga por aí, sem qualquer objetivo, tentando atrair a atenção dos familiares e de Mitch, por quem é apaixonada desde pequena. Jasper, assim como sua caçula, demonstra um grande apreço por Mitch, que, diferentemente de Kyle, é humilde e responsável. Em vez de conversar com o filho, Jasper prefere expor, sem qualquer carinho, o descontentamento que sente por suas atitudes. Seu narcisismo é tanto, que, em sua sala, há um enorme retrato seu.

Esses personagens, em sua maioria, mantêm suas aflições presas em gaiolas que minam qualquer chance de serem minimamente felizes. Da mesma forma que Kyle vê no amigo o exemplo que jamais será, Mitch carrega o fardo de ser uma espécie de pára-brisa, sempre assumindo a culpa pelos equívocos do encrenqueiro e sendo obrigado a ver mulheres atraentes se derreterem por sua fortuna. A animosidade velada está em cada diálogo, dando uma complexidade maior à relação, que ganha contornos intensos com a presença de Lucy. A princípio, ela se interessa por Mitch; todavia, não demora a ser fisgada por Kyle, que a seduz com promessas de grandeza. No avião, um simples corte, fechando o quadro no rosto dos dois, fomenta intimidade e “anuncia” o que irá acontecer. As cores vivas, as flores e a magnitude do hotel no qual o trio decide passar uma noite são marcas da fortuna. Por outro lado, o close up de Lucy, na varanda, dominada por sombras e tons frios, salienta a prisão que aquilo tudo pode ser. Rapidamente, ela se cansa, sentindo-se um artigo de luxo. Kyle, então, promete apresentar uma nova versão de si, mais humana e comum. Eles se casam, deixando Mitch, como de costume, sozinho, apaixonado por uma ideia impossível.

O figurino inicial de Lucy diz muito sobre sua aura misteriosa e charmosa. A roupa cinza denota discrição, mas o batom vermelho a contradiz. Por que ela se interessa por Kyle? Sabemos que não foi pelo poder. Talvez pela vontade de despertar o homem que nunca acordou para a vida. A performance contida de Rock Hudson é boa o suficiente para captarmos a energia melancólica de Mitch; no entanto, Sirk, em cada enquadramento, faz questão de reforçar quem ele é naquele universo. O cineasta, invariavelmente, o posiciona ao fundo no quadro, destacando o seu deslocamento social (não faz parte da família) e a sua função de conciliador, a postos para resolver confusões. Da mesma forma, não deixa de ser fascinante como Sirk, em alguns planos, mantém Lucy entre os amigos, estabelecendo uma rivalidade silenciosa. Em vários momentos, a fotografia cria um “mundo azulado”, evidenciando a melancolia que corrói essas pessoas, o que também é pontuado pela presença marcante das sombras – por vezes, elas devoram os personagens. A direção de arte, exuberante como em todos os projetos de Sirk, confere ao vermelho um papel primordial, pintando as emoções belas e destrutivas com um tom bastante intenso. Claro, tudo realçado pela maravilhosa fotografia em Technicolor. A trilha sonora é expansiva, gritando suas emoções como o filme pede.

Quando se fala em encenação melodramática, me vem à cabeça a cena em que Marylee e Mitch estão num jardim. A harmonia entre o verde, as flores e o suéter amarelo dela é de uma exuberância impressionante. Outro enquadramento que reafirma o dom de Sirk é aquele em que vemos o retrato de Mitch em primeiro plano e, ao fundo, flores vermelhas e Marylee falando no telefone – ele está presente em seus pensamentos, mas espacialmente distante. E, mais: é uma forma muito sutil de ressaltar a falta de amor que Marylee tem por si, colocando Mitch em primeiro plano. No ato final, quando Kyle, agressivo e perturbado, está afundando nas bebidas, há uma fusão em que vamos do rosto frágil de Lucy a Mitch, num belo exemplo de como conceber uma conexão “invisível”. O desfecho combina tragédia e redenção, provando que nunca é tarde para verdadeiras demonstrações de amor.

Rock Hudson compõe uma figura calma, cuja voz suave denuncia sua tristeza e comodidade. Lauren Bacall também está ótima, mas o grande destaque é Robert Stack, que faz de Kyle um ser explosivo e frágil, cuja maldição está em seu sobrenome e introspecção, no ar sedutor. Eu não poderia deixar de citar Dorothy Malone, que venceu o Oscar ao dar vida a Marylee. “Written On The Wind” é uma obra prima que merece ser estudada.

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